Capitulo 2
Desenvolvimento emocional e social na primeira
infncia 
2.1 Desenvolvimento fsico na infncia 
Clara Regina Rappaport 
O conhecimento, em profundidade, do desenvolvimento fsicc na infncia no  to importante para o 
psiclogo. Este dever, entretanto, ter noes bsicas do tamanho, peso, capacidades senso- riais e motoras 
de cada faixa etria. Isto porque obviamente o com portamento ser sempre decorrente das capacidades 
desenvolvida pelo organismo, principalmente nos primeiros anos de vida, quandc a criana no ter ainda 
pensamento conceitual, mas ser dotada d uma inteligncia sensorial-motora. Assim, na infncia inicial (0-11 
meses) o prprio desenvolvimento intelectual estar diretamente li gado  maturao do sistema nervoso 
central,  capacidade de rece ber e apreender impresses sensoriais, de executar movimentos, etc 
Neste sentido, podemos afirmar que o desenvolvimento fsico 
altamente dependente da maturao, embora possa ser influenciad 
positiva ou negativamente por fatores ambientais. 
Por maturao queremos nos referir s foras biolgicas gene ticamente programadas que direcionam o 
crescimento em tamanho a emergncia e o controle de movimentos, a integrao das impres ses sensoriais, a 
possibilidade de sentar, andar, controlar os esfnc teres, segurar um lpis, executar corretamente os 
movimentos d escrita, falar, andar de bicicleta, etc., e que aparecem na mesm seqncia para todos os 
indivduos da espcie. 
1-louve durante muitos anos uma controvrsia na psicologia respeito de comportamentos inatos ou 
aprendidos, da atuao pre dominante da hereditariedade ou do meio ambiente na determina de 
comportamentos emergentes na infncia e mesmo na idade adulu Esta discusso se mostrou estril, 
persistindo hoje um ponto de vist interacionista. pu seja, tanto hereditariedade como meio direcionar 
o desenvolvimento. Vejamos um exemplo. O desenvolvimento fsico  fortemente dependente do cdigo 
gentico. A criana ao nascer traz uma tendncia para ser alta ou baixa, gorda ou magra. Estas potencialidades 
sero atualizadas ou no em funo do tipo de alimentao oferecido  criana, da prtica de exerccios fsicos 
e de esportes, da ocorrncia ou no de certas doenas, etc. Mas, se o ambiente for favorvel, a criana com 
tendncia para alta estatura r desenvolv-la. 
J no caso de outras capacidades, como, por exemplo, a linguagem, o processo  mais complicado. A linguigem 
depende tambm da maturao biolgica, pois no h processo de estimulao ambiental que faa um beb de 
6 meses falar. Mas se uma criana tiver maturao biolgica e no receber estimulao ambiental cognitiva, 
afetiva e social), poder apresentar retardamento na aquisio da linguagem ou vrios tipos de perturbao, 
como gagueiras, dislalias, etc. 
Assim sendo,  preciso ficar claro que o desenvolvimento fsico e motor na primeira infncia  altamente 
dependente da maturao biolgica, mas  tambm suscetvel  atuao ambiental. Lembramos tambm que 
exporemos apenas alguns dados fundamentais a respeito destes aspectos do desenvolvimento, pois uma 
descrio mais detalhada foge aos objetivos deste trabalho e pode ser encontrada na bibliografia pertinente. 
O beb que tem sido, tradicionalmente, visto como sujeito passivo, dependente, apresenta j ao nascer 
diversas caractersticas fsicas e comportamentais que direcionam a atividade de outras pessoas. A sua 
aparncia e fragilidade mesmo tm o poder de eliciar nos adultos comportamentos que o protegem. Assim 
sendo, as posies mais recentes dentro da Psicologia do Desenvolvimento tm considerado o beb como 
sujeito ativo desde o nascimento. A chegada de um beb vai exigir uma adaptao em termos emocionais e 
comportamentais de todos os elementos da famlia e esta adaptao ocorrer em funo de caractersticas de 
personalidade dos adultos ou de outras crianas da famlia, mas tambm daquelas j presentes no beb, Sabe-
se que certas caractersticas como maior ou menor nvel de atividade (dimenso da personalidade denominada 
temperamento por alguns autores), ritmo de sono, alimentao, etc., esto presentes logo aps o nascimento 
apresentando variaes individuais. 
Exemplificando, alguns bebs dormem muito e choram pouco (o que  bastante freqente nas meninas), 
enquanto outros dormem menos e choram mais (principalmente os meninos). Obviamente ser mais fcil para 
uma me, notadamente a primpara, adaptar-se a uma criana tranqila. Aquele beb que chora muito, solicita 
excessivamente a presena da me, impedindo-a de dormir, realizar trabalhos 
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domsticos ou outras atividades, pode em alguns casos levar a me (e o pai)  exausto, resultando da um sentimento 
consciente ou inconsciente de rejeio  e culpa (Beil, 1974). Ora, j vimos que as primeiras semanas de vida so 
fundamentais no estabelecimento da ligao afetiva me-criana. Se a criana  particularmente difcil (como no caso de um 
excesso de choro e de solicitao) este vnculo poder ter aspectos negativos. importante considerar que a qualidade do 
vnculo me-criana no depende apenas de caractersticas de personalidade da me, mas tambm daquelas trazidas pelo 
beb j ao nascer, e da interao destes fatos. Explicando melhor podemos verificar que determinadas caractersticas de uma 
criana se tornam difceis para uma mulher mas no o so para outra, como por exemplo o sexo da criana. Parece 
comprovado que os bebs masculinos, embora mais desejados pelos pais antes do nascimento, so geralmente mais ativos e 
mais exigentes do que os bebs femininos (geralmente mais dceis). Mas, nem todas as mulheres experimentam dificuldades 
para cuidar de seus bebs masculinos, e parece, inclusive, segundo dados experimentais (Moss, 1967), que estes so mais 
beijados e acariciados por suas mes do que os bebs femininos. 
Esta questo da interao me-criana  sem dvida bastante complexa e ser tratada mais detalhadamente nos demais 
captulos. Queremos lembrar apenas que no caso de crianas que apresentam deformidades fsicas ou mentais j nos 
primeiros meses de vida, o estabelecimento do vnculo me-criana torna-se particularmente difcil para a me. (Isto ser 
facilmente entendido se considerarmos todas as fantasias presentes durante a gestao e o parto.) 
Concluindo, lembramos mais uma vez que todos os aspectos do desenvolvimento so interligados e interdependentes e que 
a diviso por aspectos (fsico, emocional, social, intelectual)  meramente didtica. 
2.1.1 Equipamento inicial 
Existem grandes variaes no tamanho e no peso dos bebs, bem como no seu ritmo de crescimento. Pesam ao nascer, em 
mdia, entre 3 kg e 3 500 kg, e tm aproximadamente 50 cm de altura, sendo os bebs masculinos ligeiramente maiores e 
mais pesados do que os femininos. Os recm-nascidos de mes carentes do ponto de vista nutritivo podem apresentar 
pesos mais baixos. 
O crescimento em altura e peso  rpido e intenso (desde que a criana tenha uma alimentao adequada), podendo atingir 
ao final do 1.0 ano de vida 70 cm de comprimento e 9 kg de peso. Ocorrem, nesta fase, grandes modificaes nas 
propores do corpo (a cabea do recm-nascido tem 1/4 do tamanho total do corpo. 
enquanto no adulto esta proporo  de l / lo; suas pernas so curtas em relao ao tamanho do tronco e por isso se 
desenvolvem mais rapidamente), na estrutura neural e muscular. 
Ao nascer, a criana  dotada praticamente de todos os sentidos e est biologicamente pronta para experimentar a maioria 
das sensaes bsicas de sua espcie (Mussen e col., 1977). Pode ver (embora obviamente no identifique qualquer objeto, 
distingue luz e sombra, acompanha os movimentos de uma luz, etc.), ouvir ( freqente a utilizao pelas mes de cantigas 
de ninar ou mesmo de msica para acalmar os bebs), cheirar, tem sensibilidade  dor (onde ocorrem grandes diferenas 
individuais), ao tato e s mudanas de posio. Quanto ao gosto, se no estiver presente no momento do nascimento, ir se 
desenvolver logo aps (observamos reaes de desagrado quando administramos um medicamento de sabor desagradvel a 
crianas de poucos dias). 
Quanto ao comportamento, a criana ser capaz de chorar em qualquer situao de desconforto, tossir, espirrar, vomitar, 
sugar, virar para o lado quando sua face for estimulada. Apresentar inmeros comportamentos reflexos que do indcio da 
adequao do desenvolvimento de seu sistema nervoso central. Alguns destes reflexos tm valor de sobrevivncia (como  o 
caso do reflexo de suco) e iro permanecer no repertrio comportamental do beb (transformando-se eventualmente em 
esquemas sensoriais motores). Outros reflexos que podem ser citados: preenso  consiste em fechar a mo quando nela 
colocamos qualquer objeto (o dedo por exemplo); andar  segurando o beb na posio ereta ele dar alguns passos; 
nadar. Estes dois ltimos desaparecem enquanto comportamento reflexo respectivamente com 8 semanas e 6 meses de 
idade, voltando a aparecer mais tarde como comportamento voluntrio. 
Outro reflexo interessante e que deve desaparecer em torno de 3 meses de idade  o reflexo de Mro, que consiste numa 
resposta de abrir os braos, esticar dedos e pernas em resposta a um som intenso ou a qualquer estmulo repentino e forte. 
E o de Babinski, que consiste em curvatura do artelho maior para cima e os menores se estendem abertos, quando a sola do 
p  estimulada. 
2.1.2 Necessidades bsicas 
Sono. Embora existam discusses tericas a respeito da necessidade de sono da criana, sabe-se que suas finalidades 
bsicas consistem em regular o corpo, manter o equilbrio na constituio qu1 Ver descrio mais detalhada dos reflexos no 
item 5 da bibliografia. 
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mica e preservar as energias do organismo para as atividades subseqentes. 
No l. ms de vida o beb dorme aproximadamente 80% do tempo, em sonecas curtas e irregulares; no final do 1.0 ano 
dormir 50% do tempo, isto , a noite toda e uma ou duas sonecas curtas durante o dia.  bvio que esta evoluo ser 
lenta e gradual. 
Quanto aos padres de sono, as crianas apresentaro, desde a mais tenra idade, diferenas individuais em funo de seu 
nvel de atividade, drogas anestsicas administradas  me durante o parto e sexo (lembramos que os bebs femininos 
usualmente dormem mais tempo que os bebs masculinos). 
Eliminao. A eliminao das fezes e da urina ser, no incio da vida, totalmente reflexa e involuntria. Nos primeiros dias 
evacuar aps toda mamada e ao redor da 8. semana dever evacuar 2 vezes ao dia. 
O tipo de alimentao oferecido ao beb ir influenciar sua eliminao e tambm as reaes da me. Quando o beb recebe 
aleitamento natural ter uma digesto mais completa com movimentos intestinais suaves e suas fezes no apresentaro 
odor desagradvel. J no caso da alimentao artificial, as fezes apresentam odor desagradvel e todo o processo de troca de 
fraldas e higiene da criana torna-se penoso para a me. 
Um problema geralmente associado  eliminao  a presena de clicas intestinais. Spitz, aps seus estudos de observao 
de bebs e suas mes, sugeriu que aquelas crianas que apresentavam muitas clicas eram filhas de mes ansiosas, que 
sentiam dificuldades no desempenho de suas tarefas maternais. Outros estudos, entretanto, sugerem que a presena ou 
ausncia de clicas se deve a uma disposio temperamental da criana, ou seja, a seu nvel de atividade. Assim sendo, uma 
criana que apresenta elevado grau de clicas no incio da vidL, possivelmente ser hiperativa mais tarde. Neste sentido a 
interpretao  inversa quela dada por Spitz. Isto , no seria a ansiedade da me a responsvel pelas clicas do beb. Mas 
sim o alto nvel de atividade deste (do qual as clicas seriam uma manifestao)  que provoca a ansiedade da me, exigindo 
maior contato no sentido de cuidados, e menos no de interao social. 
Fome e sede. Estas necessidades so fundamentais do ponto de vista psicolgico, porque implicam relacionamento social 
e emocional (que ser descrito no captulo referente  fase oral). Manifestam-se atravs de choro e de movimentos 
violentos de todo o corpo. Nas primeiras semanas, a criana ingere pequena quantidade de alimento (que se restringe 
basicamente ao leite) e, portanto, precisa ser alimentada a intervalos curtos (geralmente a cada 3 horas, ocorrendo 
variaes individuais na freqncia e quantidade da alimentao). At a dcada de 40 aproximadamente, as mes 
costumavam amamentarseus filhos sempre que chorassem e que este choro fosse interpretado como fome. Aps o 
advento e o desenvolvimento do behaviorismo, os princpios de instalao e controle de comportamento foram divulgados 
para os pediatras e o grande pblico (em revistas femininas, por exemplo) e as mes passaram a ser orientadas no sentido 
de manter um horrio rgido de amamentao (por exemplo, a cada quatro horas). 
Atualmente considera-se que, se o beb tiver uma me que capta seus sinais e responde adequadamente a eles, a me saber 
quando seu filho precisa ser alimentado. Este, por sua vez, em poucos dias desenvolver naturalmente um ritmo adequado 
de alimentao. No h, portanto, necessidade de se estabelecer rigidamente um horrio de amamentao e tampouco de a 
me estar sempre  disposio de seu filho. Isto porque, quando a me sente que deve estar sempre agindo em funo do 
beb, sem realizar qualquer outro tipo de atividade, poder sentir-se frustrada como pessoa e desenvolver uma hostilidade 
consciente ou inconsciente em funo da excessiva exigncia do beb. 
Em torno de 30 dias de idade, a criana se torna capaz de ingerir maior quantidade de leite em cada refeio, passando a 
necessit-lo aproximadamente 5 ou 6 vezes por dia apenas, A partir desta poca, os pediatras costumam sugerir o incio da 
administrao de suco de frutas, e, em torno de 4 meses, o incio da alimentao slida (sopas, papas de frutas, etc.). 
Parece estar comprovado que, quando a criana  alimentada naturalmente, no h necessidade de qualquer outro tipo de 
alimento at a idade aproximada de 6 meses. 
2.1.3 Desen volvimento psicomotor 
O desenvolvimento motor  o resultado da maturao de certos tecidos nervosos, aumento em tamanho e complexidade do 
sistema nervoso central, crescimento dos ossos e msculos. So, portanto, comportamentos no-aprendidos que surgem 
espontaneamente, desde que a criana tenha condies adequadas para exercitar-se. Queremos com isto dizer que, apenas 
em casos de extrema privao (ou de algum tipo de distrbio ou doena), estes comportamentos no se desenvolvero. 
Crianas criadas em caixotes ou quartos escuros (por mais incrvel que parea, tm-se vrias notcias a este respeito) ou em 
creches de pssima qualidade, onde as crianas so mantjdas sempre em seus beros, sem qualquer estimulao, no 
desenvolvero o comportamento de sentar, andar, etc. na poca adequada. 
26 
27 
Coste (1978) relaciona entre as principais funes psicomotoras as seguintes: desenvolvimento da 
estruturao do esquema corporal (mostrando a evoluo da apreenso da imagem do corpo no espelho e a 
explorao e reconhecimento do prprio corpo); evoluo da preenso e da coordenao culo-manual 
(evoluo da fixao ocular; preenso e olhar); desenvolvimento da funo tnica e da postura em p; reflexos 
arcaicos alm da estruturao espao- temporal (tempo, espao, distncia e ritmo). 
Seria importante realar que esses aspectos de desenvolvimento fsico no ocorrem mecanicamente apenas. 
So vivenciados pela criana (e pela famlia) e formam a base da noo de eu corporal. Sim, porque obviamente 
um indivduo, uma personalidade, existe a partir de um determinado corpo (embora algumas abordagens anda 
enfatizem, disfaradamente, o dualismo mente-corpo) e o que acontece neste corpo  apreendido pelo sujeito 
(atravs de algum mecanismo intelectual) e tem repercusses emocionais. Queremos nos referir ao 
conhecimento que a criana vai tendo de seu prprio corpo,  formao de sua imagem corporal e aos 
sentimentos que so despertados por esta ou aquela caracterstica. Como exemplo podemos lembrar a 
valorizao que a beleza fsica tem em nossa sociedade. Possivelmente uma pessoa bonita ter um fator a mais 
no sentido de desenvolver uma auto-imagem positiva do que uma pessoa desprovida desta beleza. Certas 
profisses dependem fundamentalmente da qualidade da aparncia. Outro exemplo que poderamos lembrar  o 
do adolescente cheio de espinhas, com excesso de peso, etc., que ter dificuldades em se tornar popular em 
seu grupo de amigos. 
Assim sendo, ao estudar o desenvolvimento fsico de um beb, devemos estar atentos tambm aos aspectos 
intelectuais, emocionais e sociais. 
Sabemos que uma das funes bsicas do desenvolvimento na primeira infncia  o conhecimento do prprio 
corpo, e a colocao deste corpo entre os demais objetos e pessoas do ambiente circundante.  medida que o 
beb se auto-explora (olhando para suas mos, executando vrios tipos de movimento, etc.) estar formando 
um esquema de si prprio que podemos designar como eu corporal. Esta noo de eu corporal ir incluir 
tambm os afetos positivos e negativos que o beb ter a respeito de si mesmo, e, como este auto- conceito 
inicial ir depender fundamentalmente da reao das pessoas do ambiente (principalmente a me), vemos que 
de fato a separao do estudo do desenvolvimento humano em aspectos  meramente didtica. 
2.1.4 Bibliografia 
Ver Bibliografia do captulo 1, seo 1.1. 
2.2 Organizao afetiva inicial: fase oral e amamentao 
Wagner Rocha Fiori 
2.2.1 A fase oral 
2.2.1.1 A descoberta da afetividade oral 
As descobertas da psicanlise seguiram uma caminho inverso ao processo de evoluo. Partindo do estudo 
das neuroses, notada- mente da histeria, Freud descobre que h, em todo neurtico, perturbaes da 
genitalidade. Isto o levou a concluir que h um padro de sexualidade adulto ou, melhor dizendo, genital, que 
constitui a base da organizao afetiva normal.  deste padro de sexualidade, desta evoluo da libido para 
uma genitalidade plena que o homem saudvel se define como aquele que  capaz de amar e trabalhar. Amar 
num sentido amplo tanto envolve os prazeres das atividades sexuais quanto os da constituio familiar, 
procriao e preparo ou formao dos descendentes que viro a suced-lo. 
Trabalhar implica nos derivativos sublimados da sexualidade. De um lado, produzir, seja bens ou cultura,  
eternizar sua permanncia no mundo, tal qual o faz na constituio da gerao seguinte. Cada empresa que se 
desenvolve, cada produto que  concludo, cada tcnica desenvolvida, cada colheita obtida simbolicamente 
correspondem a um produto seu, que permanece, que o serve, que serve ao grupo e que serve  preservao 
da vida. De outro lado, o trabalho representa a mobilizao dos processos secundrios do Ego,  dar 
ferramental e suporte para que as sublimaes se realizem.  permitir que a sexualidade primitiva evolua no s 
para a sexualidade genital, mas face  plasticidade da libido, evolua, para satisfazer-se em relaes produtivas e 
adequadas  sobrevivncia do grupo humano. 
Estes padres eram perturbados nos neurticos e, progressivamente, Freud passa a observar que a 
sexualidade no partia do nada para brotar espontaneamente no adulto. Freud descobre que na infncia as 
fantasias sexuais j se manifestavam. Era uma sexualidade fantasiada que se organizava em torno do grupo 
familiar. A configurao do tringulo edpico propiciava a organizao de base para a sexualidade adulta. Os 
quadros histricos traziam como pano de fundo uma vivncia inadequada deste perodo de sexualidade 
28 
2q 
II 
infantil, posteriormente denominado de fase flica. Assim, a partir de um trabalho clnico, primeiro ficam identificados os 
padres da genitalidade adulta, e depois uma fase infantil, que  bsica para sua organizao. Entre os dois se estabelece um 
perodo onde a sexualidade  contida, ou melhor, reprimida, denominado perodo de latncia. 
Com a continuidade destes tratamentos e com a tentativa de compreender e tratar quadros mais graves  ou seja, a neurose 
obsessiva, a parania, a melancolia e a prpria esquizofrenia  foram sendo descobertos traos de que j havia uma 
organizao afetivo-sexual infantil anterior  sexualidade centrada nos genitais. Verifica-se que o conjunto de instintos 
voltados para o prazer. que chamamos de libido, tinha em cada etapa evolutiva da vida uma correlao com as estruturas 
biolgicas que formavam o centro do processo maturacional no momento. Assim so descritos traos de organizao 
psquicos correspondentes aos segundo e terceiro anos de vida, perodo tpico do domnio muscular voluntrio, do andar, 
do falar, das primeiras produes pessoais, que na fantasia infantil se acham profundamente associados com os primeiros 
produtos que ela pode expulsar ou reter em seu corpo, ou seja, as fezes e a urina. Associados aos fracassos nestas 
aquisies, a psicanlise descobre a organizao de ncleos patognicos que mais tarde podero desencadear a neurose 
obsessiva e a parania. 
Os traos afetivos da organizao infantil mais precoce, referentes ao desenvolvimento do primeiro ano de vida, foram os 
que apresentaram maior dificuldade de serem discriminados e compreendidos. Em primeiro lugar, por situarem-se no 
perodo mais primitivo da vida, sendo portanto mais difceis de serem rememorados. Em segundo lugar, porque este 
perodo corresponde a um perodo pr-verbal da existncia, havendo portanto a necessidade de uma evoluo na teoria dos 
smbolos para sua compreenso. Em terceiro lugar, porque nos  difcil, como adultos, seno por um grande esforo de 
introspeco e imaginao, compreender o sentido das emoes infantis. E finalmente porque, embora estes traos estejam 
presentes nos adultos, s com o desenvolvimento das tcnicas ludoterpicas, notadamente o trabalho de Melanie Klein, 
com a psicoterapia de crianas pequenas, que se pode estar mais prximo da organizao afetiva inicial. A organizao 
afetiva do primeiro ano de vida, perodo denominado pela psicanlise de fase oral, ter sua organizao bsica proposta por 
Freud. Karl Abrahan se deter em seu exame, discriminando melhor seus mecanismos e modalidades de relao. Melanie 
Klein, notabilizada como analista de crianas, dar o grande modelo terico de compreenso deste perodo. 
2.2.1.2 A organizao da libido 
O reflexo de suco  inato, sendo desencadeado pela colocao do mamilo ou outro objeto na boca da 
criana. Um toque realizado com o dedo, no rosto da criana, far com que esta se volte para tentar sugar o 
objeto que a est tocando. Os toques em outras regies do corpo com freqncia provocaro o mesmo reflexo. 
De uma maneira geral, podemos deduzir que, biologicamente, o impulso destinado  alimentao  um fator 
central da organizao infantil inicial. E  exatamente ao nvel dos reflexos alimentares que a busca de 
adaptao ao mundo e a procura de prazer so profundamente correlacionados. 
Outros grupos reflexos coexistem neste momento. Dentro dos reflexos posturais vemos que a criana j possui 
estrutura automatizada para o andar. Um recm-nascido, seguro pelas mos e conduzido de p para a frente, 
apresentar a coordenao alternada e reflexo do movimento de pernas. H um ncleo reflexo, posterior- mente 
dominado pela organizao voluntria, sobre o qual se estruturar o andar. O reflexo tnico-cervical-
assimtrico do recm-nascido, que o deixa na clssica posio de esgrimista, ou seja, tortinho, com uma perna 
encolhida e uma mo diante do rosto, servir de suporte para as correlaes mo-boca e conhecimento da mo, 
dados fundamentais para as praxias iniciais. 
Mas este grupo de reflexos no tem a conotao de prazer apresentado pelos alimentares. O mesmo se pode 
dizer dos reflexos defensivos. Por exemplo, diante de um rudo forte o beb se encolhe rapidamente e em 
seguida atira as pernas e braos para fora. No  difcil ver a correlao com nossos processos defensivos 
fsicos onde, num primeiro momento, nos protegemos e, num segundo, tentamos expulsar a fonte da agresso. 
Esta postura defensiva fica ainda mais clara quando picamos a planta dos ps de um beb com uma agulha. 
Reflexamente ele retira o p. Mas, se este p estiver seguro, ele encolhe a outra perna e em seguida a estica na 
direo do p magoado. Parece-nos claro que todos os grupos reflexos esto ligados ao progressivo processo 
de construo do real, notavelmente estudado e descrito pelo grupo de Piaget. Mas o vnculo do prazer, 
suporte para o desenvolvimento da aftividade,  neste momento uma correlao oral.  em cima do prazer 
inicial, da satisfao tida com a amamentao, que se aprender a amar e que se aprender a desenvolver Os 
vnculos de amor em seguida dissociados da exigncia biolgica bsica de alimentao. Freud organiza a 
descrio das fases de evoluo da libjdo em seu Trs ensaios para uma teoria sexual (1903). Neles, o termo 
fase oral ainda no aparece, mas Freud j descreve Vrios aspectos da afetividade oral, estruturados sobre a 
amamen 30 
31 
(ao. D como suporte as descries efetuadas pelo pediatra Lindner, onde os vnculos de prazer ligados  
amamentao so excepcionalmente bem descritos. Quase que apenas lhe falta uma sntese terica para se 
antecipar a Freud. Mostra Lindner como todo envolvimento, a expresso de prazer e xtase durante o processo 
de amamentao so similares s manifestaes orgsticas do adulto. 
Vimos observando at agora que, tanto ao nvel dos reflexos quanto ao nvel dos vnculos de prazer 
externamente percebidos, a organizao oral  o elemento central da motivao infantil inicial. Quando 
utilizamos o termo motivao, temos claro que estamos criando a impresso de uma dicotomia no ser humano, 
dicotomia que teria, diante das situaes de vida, de um lado a capacidade cognitiva de elaborar e resolver 
problemas e, de outro, o impulso que d a energia para que a situao de vida seja enfrentada. No cremos 
pessoalmente nesta dicotomia humana, mas ao nvel dos atuais conhecimentos da psicologia, Piaget (e 
seguidores) emerge como o terico da construo do real, portanto da evoluo da cognio humana; e Freud 
e seguidores so os responsveis pela descrio evolutiva normal e patolgica da afetividade. Nesta dimenso 
afetiva, o vnculo oral  claramente percebido como o ponto central do vnculo humano de prazer. 
A evoluo da libido , portanto, o tema central do desenvolvimento para a psicanlise. A fase oral  ento 
definida como a etapa de desenvolvimento onde a libido est organizada sob o primado da zona ergena oral, 
dando como modalidade de relao a incorporao. Isto significa que o centro da organizao afetiva est 
determinado por processos introjetivos. Mamar e sentir prazer  sentir que o leite  bom, que o seio  bom, que 
a me  boa e que o mundo  bom. A sua sensao de que est bem  correlata  de ter colocado dentro de si 
objetos do mundo externo que so bons. O seio e a me podem ser sentidos como bons porque foram 
incorporados. A incorporao  a modalidade primitiva da introjeo, portanto dependente de referenciais 
concretos. Por isso, a maternagem  fundamental para que a criana se sinta adequada, amando e sendo 
amada. O vnculo bsico da maternagem  a amamentao. Erik Erikson diz que neste momento a criana ama 
com a boca e a me ama com o seio. 
2.2.1.3 As etapas orais 
Karl Abrahan, psicanalista do grupo freudiano, aprofunda-se nas idias iniciais de Freud sobre a fase oral e 
nela discrimina duas etapas bsicas de desenvolvimento da libido. A primeira  chamada de fase oral de 
suco, e corresponde a um perodo de relaes 
afetivas pr-ambivalentes, que cobrem basicamente o primeiro semestre de vida; ou, num correlato biolgico, 
vai do nascimento ao perodo inicial da dentio. O segundo semestre do primeiro ano corresponder  etapa 
oral sdico-canibal, iniciada a partir da dentio, onde as fantasias agressivas sero correlacionadas com a 
percepo do objeto inteiro, ou seja, com o surgimento da ambivalncia (a mesma me  boa e m), e com a 
dentio, ou seja, a percepo do primeiro momento de agresso ou destrutividade real da criana. 
A etapa oral de .suco 
A criana funciona basicamente incorporando o universo que a rodeia. No o discrimina coerentemente, e o 
mundo de suas vivncias  o mundo interno das fantasias. No h vnculos com objetos externos inteiros. Eles 
so apreendidos de forma parcial e organizados pela realidade interna. O que  apreendido  sentido como 
parte integrante do eu. O mundo  buscado para ser incorporado, reduzindo-se a algo digerido, indissociado 
dos sentimentos bons ou maus que a relao desperta. 
A relao incorporativa estabelecida  a base da introjeo. O seio, a me, as relaes boas que deles emanam 
passam a fazer parte do mundo interno da criana. Ela sente que as coisas que recebe em seu interior so boas, 
e sente-se boa. Como o que importa  a realidade interna, este sentimento de amor ou de bom  utilizado para 
permear as primeiras percepes do mundo externo, ou seja, os objetos percebidos so sentidos como bons. 
Simplificando, o processo fica assim: incorporo e me sinto bom, projeto para ver o mundo externo, porque 
este s  percebido atravs da minha realidade psquica; e, portanto, por me sentir bom posso ver a minha me 
boa; como eu a vejo especularmente, ligo-me a ela. Este processo, que chamamos de identificao projetiva, 
constitui a base da configurao dos vnculos de amor, da configurao inicial da identdade e do 
reasseguramento dos sentimentos positivos que permitiro a progressiva evoluo da libido atravs das vrias 
fases. 
Embora a genitalidade domine a organizao afetiva adulta, podemos perceber que vrios traos orais so 
mantidos, permeando os relacionamentos afetivos dos adultos, O beijo  ainda o smbolo central do 
engajamento amoroso. Expressamos nele o trao do vnculo afetivo original mais forte que foi desenvolvido. O 
beijo no fecunda, no  elemento biolgico necessrio para a perpetuao da espcie. , sim, vnculo do 
engajamento amoroso, constitutivo da organizao afetiva familiar humana. Chamar a mulher amada de 
docjnho ou o homem de po so verbalizaes denotadoras dos traos orais que permanecem na 
genitalidade. Isto  igualmente v- 
32 
33 
lido para a expresso comer algum como indicadora do relacionamento sexual. Homens mandam bombons 
para as namoradas. Mulheres prendem os homens pelo estmago; o trao oral persiste. 
Ao nvel masculino, o prazer obtido com o seio  mantido, expandindo-se para o prazer de se relacionar com o 
corpo e os genitais femininos. A mulher se estrutura como objeto desejado e fonte de prazer, Ao nvel 
feminino, sentir que as coisas que recebe em seu interior so boas prepara-a para a sua futura genitalidade 
receptiva. Receber o homem em seu interior ser sentido como fonte de prazer e gratificao. 
A gratificao oral inicial tambm pode ter sido sentida como insatisfatria ou insuficiente. Isto criar 
permanentemente a expectativa de que receber o mundo externo, ou se relacionar com ele, ser fonte de 
angstia ou de sofrimentos. Discutiremos algumas destas modalidades quando tratarmos da amamentao. 
Interessa-nos agora a mais grave delas: a esquizofrenia. Temos examinado que o mundo externo s pode ser 
progressivamente conhecido e amado a partir dos vnculos de maternagem. A criana pode nascer to frgil, 
to sensvel  angstia ou, como dizemos analiticamente, com predominncia do instinto de morte sobre o de 
vida, que quaisquer oscilaes da maternagem repercutiro como processos destrutivos, fazendo-a regredir e 
isolar-se em seu mundo interno de fantasias. Tambm a criana com uma propenso normal ao 
desenvolvimento sadio pode sofrer uma maternagem to desestruturadora e agressiva, que no seja capaz 
estabelecer vnculos significativos com a me e, portanto, com os demais objetos do mundo externo. 
Nestes casos ocorre um isolamento. No ocorre o desenvolvimento de vnculos, e a realidade externa passa a 
ser rejeitada. Todo prazer, ou melhor, toda segurana, s pode existir dentro do mundo interno de fantasias. O 
externo no forma um todo coerente, as discriminaes so fragmentrias e parciais. As apreenses parciais 
so modeladas e integradas em uma realidade interna, de fantasias, que  sentida como a nica realidade. Os 
processos mentais so os do inconsciente. O Ego no se fortalece, o processo secundrio no se estabiliza. O 
desejo, o temor, as fantasias organizam-se como a realidade do pensamento. A configurao da identidade no 
se pode formar. 
Este no  um fenmeno do tudo ou nada. Em maior ou menor grau, todas as pessoas sofreram frustraes 
orais que as marcaram de maneira mais ou menos profunda. Estatisticamente o pico da incidncia dos surtos 
esquizofrnicos est situado no perodo final da adolescncia. Isto significa que o indivduo tem uma certa 
capacidade para resistir aos picos mais crticos das angstias iniciais e para continuar seu processo de 
desenvolvimento, que pode at 
aparentar-se normal para a percepo externa e leiga. Mas um ponto de fixao foi criado, ou seja, grande parte 
da energia da libido foi imobilizada neste momento. Os desejos no satisfeitos conservam-se sempre, como 
uma energia presa que no pode ser elaborada. A represso que se forma, para no permitir a emergncia dos 
desejos ou da destrutividade que  sentida junto com eles, imobiliza outro tanto de energia. Com isto, ficam 
tambm presas a este ponto as fantasias deste momento e as modalidades de relao com o mundo que o 
caracterizam, e, mais particularmente, das defesas que foram mobilizadas contra a angstia. 
Embora o desenvolvimento aparentemente prossiga, o indivduo se torna frgil. Parte de sua energia vital est 
imobilizada, e seu desenvolvimento prosseguir sendo estruturado pela energia restante. 
O Ego ser mais frgil e no ter tanta fora para enfrentar as futuras crises. Assim, no  que a estrutura 
narcisista e cindida da criana permanea linearmente. Melanie Klein mostra inclusive que o pensamento 
infantil  psictico, mas neste momento isto representa uma etapa adequada do desenvolvimento infantil. E 
exatamente o que Freud chama de narcisismo secundrio que ir configurar a doena. Freud utiliza um correlato 
biolgico para exemplificar o processo. A ameba  uma massa fechada. Emite pseudopoder, para contactuar e 
incorporar os objetos externos, que so trazidos para dentro dela. Mas enquanto a ameba vai 
permanentemente fazendo suas incorporaes por este contato, o psictico recolhe para dentro de si as 
apreenses externas, recolhe suas possibilidades de novas ligaes, e o mundo externo perde o sentido. 
A etapa oral-canibal 
Este segundo perodo oral  introduzido na obra de Freud por Karl Abrahan. Se antes a criana apenas 
incorporava, e suas modalidades agressivas existiam apenas no plano da fantasia, agora, com a vinda dos 
dentes, a agressividade ser concretizada. Os dentes surgem rasgando as gengivas, provocando dor, febre e 
angstia. A oposio do primeiro dente com as gengivas fere. O dedo  levado  boca e mordido, e a sensao 
de morder e ser mordido traz a percepo de que concretamente se pode destruir. Os alimentos so mordidos e 
triturados para serem ingeridos. O seio da me se retrai com a mordida, e concretiza-se a fantasia de que a 
agressividade destruiu o seio, a me, o objeto de amor. 
O processo  em si adaptativo, como qualquer procedimento humano caracterstico. No o fosse, e o padro se 
teria extinto, ou a prpria adaptao da espcie estaria em perigo. E necessna certa dose de agressividade 
para entrar no mundo, atac-lo em suas opo 34 
35 
O melanclico grave, em seus delrios, sente-se responsvel por toda 
sies e mold-lo s necessidades do organismo. A agressividade faz parte do desenvolvimento do 
processo secundrio. Mira y Lopez utiliza em seu modelo de teoria da personalidade, suporte terico 
de seu Psicodiagnstico Mo-Kintico (PMK), o termo combatividade para definir a adequada 
elaborao da agressividade nas relaes com o mundo. 
As fantasias destrutivas podem, porm, predominar. Isto ocorre sempre que a angstia predomina 
sobre o amor, que a dor predomina sobre o prazer. A relao com o mundo passa a ser sentida 
como uma relao onde tudo o que se consegue  atacado e destrudo. A amamentao perdida  o 
seio que foi incorporado e destrudo. A me pode ser perdida ou pela destruio ou por ser protegida 
do contacto destruidor. Nada satisfaz porque, se incorporado, foi destrudo e no serve mais. Muitos 
adultos vivem dentro desta modalidade. Discutiremos os traos desta modalidade de incorporao 
com destruio quando tratarmos do desmame. Agora nos prenderemos  organizao da dimenso 
mais grave desta modalidade, ou seja, a melancolia. 
A melancolia est estruturada dentro da modalidade de incorporao com destruio. A dimenso 
de destruir apresenta, ao nvel da fantasia, uma modalidade dupla. De um lado, o sentimento de que 
somos maus e destruidores, ambivalente ao sentimento sempre existente de que somos bons. Isto na 
prtica aparecer como um sentimento simultneo de destruio e de culpa porque, paralelo ao dio, 
existe o amor pelo objeto destrudo. Logo, o objeto de relao ser ambivalentemente estruturado 
como um objeto mau e bom ao mesmo tempo. Como estamos dentro de uma modalidade oral, 
portanto introjetiva, isto significa que, quando o objeto ambivalente  atacado, ou seja, na crise de 
dio ou de destrutividade, o objeto  cindido e seu aspecto mau  introjetado. Por exemplo, a me  
externamente preservada e idealizada como tendo apenas caractersticas boas, e a me m  
introjetada. Normalmente o que introjetamos  sentido como nosso, ou seja, a introjeo  seguida 
pela identificao. Isto explica a estrutura autodestrutiva do melanclico. Ataca permanentemente o 
objeto mau que foi introjetado e com o qual se identifica. A estrutura superegica  rgida e os 
ataques autopunitivos e a autodepreciao acusatria constituem, portanto, uma compensao pela 
destrutividade. O sentimento de compensao gera prazer, e, portanto, o melanclico goza sua 
autodestruio. O modelo  similar s procisses medievais de autoflagelamento, onde a dor  
prazeirosa, porque redime a maldade e o pecado. A onipotncia, como caracterstica primitiva, 
estar presente. J que no pode ser o maior objeto de amor, ser um monstro de destrutividade. 
maldade do mundo, 
Abrahan mostra que para a emergncia da melancolia so necessrios vrios fatores, cada um dos 
quais podendo isoladamente pertencer a qualquer estrutura patolgica. So eles: 
1) Um fator constitucional. A maior ou menor fora dos instintos de vida, ou seja, uma predisposio 
inata para o desenvolvimento, poder em maior ou menor grau enfrentar ou sucumbir s frustraes 
durante o desenvolvimento dos vnculos. 
2) Uma fixao da libido no nvel oral. A organizao oral exacerbada fixar uma modalidade onde 
toda troca  oral. Encontramos estes traos nos prazeres anormais no ato de comer, nas 
manipulaes da boca e maxilares que acompanham as tarefas difceis, ou seja,  necessrio um 
prazer oral diante de cada dificuldade. 
3) Uma grave leso ao narcisismo infantil, provocada por sucessivos desapontamentos amorosos. 
Aqui a fragilidade constitucional e a fixao oral somam-se s frustraes reais ou fantasiadas. Um 
desmame inadequado, a vinda de um irmo, os afastamentos da, me, as internaes. A frustrao 
exacerbar as modalidades defensivas orais. 
4) A ocorrncia do primeiro desapontamento amoroso antes que os desejos edipianos tenham sido 
superados. Dentro da evoluo da libido, a criana evolui para a configurao do tringulo edpico. 
Neste momento, as frustraes provocaro uma regresso dos vnculos edpicos  modalidade oral-
canibalesca, ou seja, os processos de ciso, introjeo e identificao recairo maciamente sobre 
os objetos fundamentais de amor: a me e o pai. 
5) A repetio do desapontamento primrio na vida ulterior, o que temos indicado sempre como o 
fator desencadeante. O desa 
pontamento amoroso, o fracasso financeiro e os acidentes faro com que a regresso seja 
estabelecida, permitindo a emergncia do surto melanclico. Uma angstia atual, que no pode ser 
suportada, desencadear a regresso. 
A angstia do melanclico no pode ser indefinidamente suportada. Os processos onipotentes 
ligados  autodepreciao e auto- destruio so periodicamente revertidos para a modalidade 
onipodepresso. Se para o melanclico o superego era exacerbado, para o tente contrria, ou seja, a 
mania surge como uma defesa contra a manaco ele desaparece, e o ego frgil cede aos desejos 
vividos como realidade. A identificao com o objeto destrudo  negada e surgem apenas as 
dimenses de amor, felicidade e poder. Ao ciclo destas oscilaes alternadas de melancolia e mania 
damos o nome de psicose manaco-depressiva. 
36 
37 
2.2,2 Aniamenao 
As implicaes da amamentao como vnculo central da maternagem j foi discutida em vrios nveis terico-evolutivos. 
Tentaremos agora examinar alguns aspectos prticos da atuao materna e suas conseqncias no desenvolvimento infantil. 
Em primeiro lugar,  importante ter claro que estamos tratando de uma modalidade oral, ou seja, as fantasias ligadas  
amamentao so o ncleo da maternagem, mas no a prpria maternagem. Estas fantasias so organizadoras do mundo 
interno da criana e correlacionam-se apenas fragmentariamente com a realidade externa e objetiva. Se o desenvolvimento 
fosse diretamente correlacionado ao processo externo objetivo, a criana seria to mais ajustada quanto maior fosse a 
quantidade de leite produzida e a durao do aleitamento. Isto no  verdade. O relacionamento com a me  
primordialmente qualitativo. No importa apenas dar o seio. O que importa  como o seio  dado, como as solicitaes 
paralelas da criana so atendidas, ou seja, no se est apenas incorporando o leite da me, mas tambm sua voz, seus 
embalos, suas carcias, O beb discrimina mais a me pelo cheiro e pela voz, do que pelo olhar, visto que o rosto humano 
s ser discriminado no 4,0 ms. As carcias da me no s proporcionam intensa sensao de prazer, como vo 
progressivamente dando  criana a configurao de seu prprio corpo; portanto, vo auxiliando a configurao do esquema 
corporal. O eu da criana comea a configurar limites, ou seja, a ter existncia prpria pelo contorno que lhe  dado pelo 
corpo materno. 
As crianas criadas em instituies, apesar de todos os cuidados alimentares, higinicos e mdicos, andam tardiamente, 
falam tardiamente, possuem um esquema corporal prejudicado, tm dificuldades de estabelecer ligaes significativas e 
como fonte de satisfao usam freqentemente condutas auto-erticas, portanto regredidas. Por exemplo, os balanceios e as 
ritualizaes rtmicas de movimentos, O leite e o asseio no so em si suficientes para o desenvolvimento sadio. Mamar 
deve ser acompanhado de um ritual prazeiroso de conhecimento de uma figura amada e permanente. O mesmo  vlido para 
os cuidados higinicos e os jogos. Por isto fracassam tanto os programas institucionais onde voluntrias espordicas vo 
brincar com as crianas. 
Estamos frisando que, ao nvel da figura materna, o ponto fundamental  a presena de uma mulher que seja figura estvel, 
que seja capaz de dar amor e que seja, ao nvel qualitativo, capaz de compreender e atender as solicitaes bsicas feitas 
pela criana. No utilizamos o termo me, mas sim figura materna, porque este  o elemento fundamental para a criana. 
No importa se a me  verda deir 
ou no ao nvel biolgico. Importa, sim, que seja uma figura capaz de criar laos estveis de amor e de 
confiana na relao estabelecida com o beb. Alguns padres bsicos de relacionamento, como os 
estabelecidos com a me, com o pai e com o tringulo edpico, so estruturas inatas da criana, que para serem 
desenvolvidas requerem basicamente a existncia de uma mulher e de um homem adequados e estveis. 
Da mesma forma, no  dado nico partir-se de que o seio real seja indispensvel para o desenvolvimento 
psicolgico sadio. A maternagem  um processo global de envolvimento me-filho. Caso a me no possua 
leite, ou mesmo em caso de filho adotivo,  o relacionamento amoroso e corporal como totalidade que 
alimentar os processos introjetivos da criana. Portanto, mesmo no havendo leite no seio, a me ser 
adequada se puder amar e se puder repetir todo o ritual existente na amamentao real. Tomar o filho ao colo 
nu  dar-lhe um contato pele a pele prazeiroso e configurador. Falar com ele, embal-lo, acarici-lo, tudo lhe 
dar no s a prpria configurao, mas tambm o ajudar a organizar e amar o objeto primordial de toda sua 
evoluo afetiva: sua me. 
Com freqncia, a ausncia de aleitamento materno est correlacionada a problemas emocionais no 
desenvolvimento. Julgamos que no  especificamente a falta do leite do seio que provoca estes problemas, 
mas exatamente por existirem, ao nvel da me, distrbios emocionais srios, cujos sintomas implicam na 
rejeio do filho,  que, por somatizao, o leite desaparece. Mesmo ao nvel da sabedoria popular conhecemos 
a expresso indicadora de que o leite secou em conseqncia de susto ou frustrao violenta. As angstias 
inconscientes podero bloquear a formao do leite. Sabemos tambm que na origem do aleitamento h 
influncias hormonais (pr-lactina) e de estimulao local. Por exemplo, em algumas tribos so as mulheres 
idosas que amamentam todas as crianas. A constante estimulao local mantm o fluxo de leite quase que 
indefinido. Tambm na Idade Mdia, as damas de leite eram escolhidas entre moas solteiras e sem filhos. 
Como amamentar no era uma funo nobre, to logo chegava a hora de nascer um sangue azul, as donzelas 
punham os irmos menores (e os namorados) a prover estimulao local, O leite jorrava, ela e sua famlia eram 
levadas para o castelo, resolvendo-se a sobrevivncia da famlia. 
Queremos com isto mostrar que o prazer que a mulher tem de dar o seio e a estimulao resultante das 
amamentaes regulares constituem a base da manuteno do leite. Ora, as mulheres que evitam dar o seio, 
que o retiram ao primeiro intervalo da criana, que desnecessariamente ficam buscando alimentao 
complementar que espace a amamentao so mulheres que em geral tm este de- 
38 
39 
sempenho como sintoma de uma rejeio inconsciente da criana. Estamos ressalvando,  lgico, os casos 
onde a misria e o trabalho materno impedem o processo.  portanto julgamento precipitado atribuir os 
problemas psicolgicos evolutivos  carncia de aleitamento materno. Pensamos que o que faltou no foi o 
leite, mas a me, no sentido pleno da palavra. Podemos voltar s instituies, onde o suporte da mamadeira  o 
travesseiro, onde a enfermeira no se relaciona com uma criana, mas com vinte ou trinta traseiros a serem 
lavados. A crana no evolui, no porque o aleitamento seja artficial, mas sim porque inexiste a mulher 
permanente que ama e que se engaja na relao com o filho. 
Em seu processo de desenvolvimento, a criana apresenta uma seqncia definida na evoluo de seu mundo 
psicolgico, ou seja, o momento de interrupo da amamentao concretizar diferentes posturas no 
relacionamento com o mundo. Posturas estas que, embora iniciadas nestes momentos, tendero a se expandir 
para todo desenvolvimento futuro, ou seja, todas as modalidades de relaes futuras podero estar permeadas 
por este processo. Teremos, ento, quatro momentos diferenciais na interrupo da amamentao. 
a) interrupo correta; 
b) interrupo precoce; 
c) interrupo no surgimento da dentio; 
d) amamentao anormalmente prolongada. 
a) interrupo correta 
senso comum, tanto para a pediatria quanto para a psicologia, que a amamentao deve perdurar at o sexto 
ms. O desmame deve comear por volta do terceiro ms, quando  iniciada a introduo de sucos e papinhas. 
Progressivamente as refeies infantis o vo substituindo, at que ao final do sexto ms o seio pode ser 
deixado. 
O seio, primeiro objeto de amor e ponto de partida para o desenvolvimento das relaes objetais, no pode ser 
perdido, antes que outros objetos possam ser amados e valorizados para servirem de suporte a esta perda 
fundamental. Por volta do terceiro ms a criana j est estabelecendo suas relaes com a me. Para Melanie 
Klein, situa-se entre o terceiro e quarto ms a passagem da posio esquizo-paranide para a posio 
depressiva, ou seja, as apreenses cindidas passam a ceder lugar  apreenso de objetos inteiros, O 
relacionamento prazeiroso, ainda que dependente do seio, j pode ser efetuado com a me como um todo, O 
pai passa a ser percebido, constituindo nova fonte de relacionamento prazeiroso. Os alimentos 
que so progressivamente introduzidos tambm do prazer. Os brinquedos comeam a existir como fonte de prazer, 
embora neste momento s existam quando dentro do campo perceptual da criana. O objeto permanente, ou seja, a 
capacidade de manter na memria os objetos que saem do campo visual s estar estabelecido aos oito meses, Mas, mesmo 
assim, OS brinquedos e os jogos corporais so fontes de prazer. 
Podemos perceber ento que o seio s pode ser perdido quando existirem outras fontes de satisfao e ligaes afetivas que 
compensem a perda. O desmame progressivo permitir que os novos vnculos sejam progressivamente estabelecidos,  
medida que o vnculo inicial com o seio for sendo reduzido. A criana sentir a perda. O desmame , provavelmente, a 
maior frustrao de nosso desenvolvimento afetivo. Se perdido, porm, o seio, restam me e pai amorosos e adequados; se 
perdido o leite, ganha-se a possibilidade de todos os outros alimentos; se perdido o prazer de sugar, ganha-se o de morder, 
o de jogar; a frustrao  assimilada porque os ganhos so maiores do que a perda. 
b) Interrupo precoce 
Quando a amamentao  interrompida antes que surjam outros .vnculos de prazer que permitam suportar a frustrao, o 
sentimento que fica  um sentimento de carncia, uma sensao de que  preciso comer,  preciso incorporar e de que o que 
 recebido no basta, Para preencher estar falta,  preso sempre buscar relaes onde as pessoas ou objetos sejam um 
eterno vertedouro de prazer e alimento. Quando este sentimento se acentua, e isto poder ocorrer tanto por uma 
fragilidade constitucional da criana, quanto porque a maternagem como um todo no  sentida como satisfatria, teremos o 
desenvolvimento de uma postura oral captadora. 
O tipo oral captador permanece na eterna expectativa de poder apenas se amamentar em todas as relaes que estabelece. 
O caador de dotes ou genrocrata  um exemplo social tpico. No pode estabelecer vnculos afetivo-gentais com as 
mulheres, ou melhor, sequer as pode perceber direito. S pode v-las como fonte de riqueza, de segurana econmica e 
social, de prazer culinrio. O cften  seu desdobramento psicoptico. Tambm funcionam assim as mulheres que avaliam 
seus homens pelos carros, jias e propriedades das quais poder usufruir. Os glutes, os beberres, os toxicmanos 
participam tambm da postura de uma eterna tentativa de satisfao oral. Cumpre salientar que como regra geral so todos 
sexualmente frios. No desenvolvem a modalidade genital. 
40 
41 
e) interrupo no surgimento da dentio 
O surgimento da dentio marca o aparecimento da concretizao da agressividade e da destrutividade. J discutimos 
anteriormente estes aspectos. Ao nvel da amamentao,  um risco, para a evoluo psicolgica da criana, que o desmame 
seja interrompido em conseqncia das mordidas. Ao nvel do pensamento infantil, o processo  sentido como se a criana, 
ao tentar se relacionar com o objeto de prazer, o tenha destrudo e perdido. A criana gosta de mamar, e neste momento 
gosta tambm de morder. Ao morder, a me retira o seio. Sucedem-se mordidas e interrupes, at que o seio  
definitivamente retirado. Fica o sentimento de que o objeto de prazer foi usadc e destrudo. 
A fixao desta modalidade de incorporao com destruio poder produzir tipos sociais eternamente insatisfeitos com 
suas conquistas. Uma vez conquistado um objetivo,  como se este houvesse sido destrudo e tivesse deixado de existir 
como fonte de prazer. 
Os eternos primeiranistas de faculdade so em nosso meio social um exemplo tpico. Luta-se por uma faculdade de 
engenharia, por exemplo, que  abandonada aps o primeiro ano; sucedem-se entradas igualmente insatisfatrias em dois ou 
trs cursos diferentes at que por presso da vida acaba-se por permanecer em algum, mas sem t-lo definido realmente 
como sua fonte de prazer profissional. Aquilo que foi conquistado  imediatamente desvalorizado. As mulheres so 
deslumbrantes e idealizadas at a primeira noite. Efetuada a conquista, elas no mais merecem valor e as energias so 
voltadas pari outra conquista. O carro dos sonhos vira poo de defeitos to logo seja adquirido.  preciso buscar outro 
modelo, porque s permanece bom e idealizado enquanto no destrudo pela posse. 
Paralelamente, esta postura de devorar e destruir tudo que  amado e conquistado pode conduzir ao isolamento. H uma 
espcie de temor difuso (porque a fantasia e a modalidade de relao so inconscientes) de se destruir os objetos amados. E 
os objetos de amor mais significativos no podem, portanto, ser trazidos para a destruio. O amor verdadeiro no ser 
declarado, para que o parceiro e o amor sejam preservados. 
d) A mamentao anormalmente prolongada 
A amamentao s poder se estender se a criana refrear seu impulso para morder. No h mamilo que resista ao corte dos 
primeiros dentes. Mas quais as conseqncias de sc bloquear o aparecimento da agresso? Em primeiro lugar, a 
agressividade oral no surge gratuitamente. Todo processo de competio na luta pela vida 
implica numa atuao agressiva.  preciso que o boi seja abatido para que tenhamos a carne, temos que derrubar a floresta 
para eu!tivar a terra. Quando lutamos por uma vaga num emprego ou numa universidade, conquist-la significa derrotar os 
que no a conseguiram. A agressividade  o elemento fundamental da combatividade, ou seja, a capacidade do ego de exercer 
o processo secundrio, de efetuar conquistas para que o desejo possa ser realizado implica a participao de um impulso 
agressivo. 
Sabemos tambm que o desenvolvimento humano possui perodos crticos, como o processo de estampagem nos 
animais. Um curi que no tenha ouvido regularmente o canto da espcie durante o perodo de incio de seu canto, jamais o 
aprender adequadamente. Passado o momento de uma aquisio, ela no poder ser adequadamente estabelecida em um 
perodo posterior. E este  o momento de organizao da agressividade real,  o momento de morder para se alimentar. 
Vedando-se sua manifestao, corre-se o risco de se extinguir o impulso para competir e combater, de se configurar uma 
estrutura de relao onde, mesmo havendo competncia, falta a capacidade de conquista. Com freqncia, todos ns 
conhecemos tipos assim.  bom profissional, mas no consegue emprego.  excepcional nos treinos esportivos, mas 
fracassa durante as competies. Sua vida ser um eterno desperdcio de talento, porque jamais lutar pelo lugar que sente 
que merece. Acomoda-se e passivamente mantm o que j possui. Lutar  sempre sentido como um risco de perder o que 
j tem. 
2.2.3 Concluso 
Vimos que a amamentao  um elemento central da maternagem. Que organiza a evoluo afetiva normal, mas que pode ser 
perturbada pela inadequao afetiva da me, pela maior fragilidade constitucional da criana e por fatores acidentais. Como 
ncleo da maternagem, as distores na amamentao so sintomas de que h problemas emocionais ao nvel da criana ou 
da me, O processo de desmame deve ser progressivo e situado entre a percepo da me (e outros objetos de amor) e o 
incio da dentio. Distores no processo podem concretizar fantasias infantis de carncia ou de destrutividade, 
provocando modelos de relao distorcidos, que podero perdurar por toda a vida. 
2.2.4 Leituras recomendadas 
Ver Leituras recomendadas do captulo 1, seo 1.2. 
42 
43 
2.3 Interao me-filho: modelo bidirecional de efeitos 
Clara Regina Rappaport 
A hiperatividade, segundo Laufer e colaboradores, pode ser caracterizada por choro excessivo, marcantes distrbios 
digestivos (freqentemente referidos como clicas) e de sono (dificuldade em adormecer, perodos curtos de sono), 
comportamento queixoso. Para a criana nessas condies, uma quantidade normal de cuidados maternos pode ser 
inadequada. Ou, como dizem esses autores, parece paradoxal que uma me aparentemente normal e adequada, que 
criou, anteriormente, filhos saudveis e alegres, agora, inexplicavelmente, a despeito de seus esforos, tenha uma criana 
tensa, cronicamente triste e exigente (p. 465). 
Segundo esses mesmos autores, algumas mes tm um senti- mente inconsciente, s vezes consciente, sobre sua 
adequao como mulheres, esposas e mes. Uma criana com esse tipo de com portamento (isto , a hiperatividade) 
parece oferecer a elas a prova concreta de sua inadequao. Isso gera na me intensas tenses e maiores esforos para 
moldar a criana a padres mais aceitveis 
(p. 465-4 66). 
Para essas crianas, a me  usualmente malsucedida e a hostilidade inconsciente em relao  criana tende a se 
desenvolver, e esta, por sua vez, responde de maneira a causar distrbios emocionais secundrios. 
Elas constituem um tipo de criana que no inclui em nenhum esquema familial. O padro peculiar de respostas dessas 
crianas  explosivo e impulsivo, alm do fato de ser particularmente intolervel a muitos pais, que acham difcil aceitar 
em seus filhos comportamentos impulsivos. 
2.3.] Evidncias empricas dos efeitos da interao me-filho 
H algum tempo os psiclogos se preocupam com a interao me-filho (I-M-F) nos primeiros meses e anos de 
vida como determinante fundamental de certas caractersticas de personalidade, mais ou menos permanentes, 
que se manifestam no processo de desenvolvimento da criana. 
To grande seria a influncia destas primeiras experincias, que a ausncia materna motivada por morte, 
abandono, guerra, hospi1 Esta sec- foi adaptada da tese de mestrado da autora, intitulada Interao 
me-filho: nfluncia da hiperatividade da criana no comportamento materno. So Paulo. Universidade de So Paulo. 1978. 
talizao (da prpria me ou da criana) levaria, sem dvida, a distrbios graves no processo de 
desenvolvimento da personalidade, conforme mostram os estudos detalhados de Freud e Burlingham (1949), 
feitos com crianas separadas dos pais e colocadas nos abrigos antiareos em Londres, durante a 2. Guerra 
Mundial. 
Os distrbios ocorriam em todos os aspectos da vida da criana em que o componente afetivo  o motor do 
desenvolvimento. Entre esses aspectos, Anna Freud cita a aprendizagem da linguagem e da noo de 
propriedade nos primeiros dois anos de vida. 
Spitz (1945) chama a ateno para os atrasos de desenvolvimento que ocorrem em crianas institucionalizadas, 
atrasos estes que o autor atribui  ausncia de contato, ausncia de afetividade, ausncia enfim da figura 
materna. 
Baseado em pesquisas com crianas adotadas aps um perodo prolongado de institucionalizao (em torno 
de 30 meses) na infncia inicial, Goldfarb (1945) afirma que este perodo, no qual as crianas recebem menos 
afeto e menos estimulao do que as crianas criadas no lar,  profundamente pernicioso para seu 
desenvolvimento psicolgico. 
Existe, ainda segundo Goldfarb, evidncia da persistncia deste efeito nocivo, mesmo aps a colocao destas 
crianas em lares adotivos selecionados, com superviso de pessoal especializado e em alguns casos at com 
tratamento psiquitrico. 
A experincia inicial com alto grau de privao (afetiva, social e de estimulao intelectual) na criana 
institucionalizada resulta, aparentemente, numa fixao quase constitucional nos nveis mais primitivos de 
comportamento conceitual e emocional; ausncia de desenvolvimento na organizao emocional, 
relacionamento social e na habilidade intelectual. Ocorre ainda uma passividade generalizada na personalidade, 
to forte que impede a criana de se beneficiar com novos tipos de estmulos fornecidos pelo ambiente, 
incluindo os de relacionamento humano, e assim as reaes emocionais e intelectuais iniciais se mantm 
durante toda a infncia e mesmo na adolescncia. 
Estudos deste tipo despertaram nos psiclogos, das mais diversas formaes tericas, o interesse e a 
necessidade de pesquisar, de observar e identificar quais os fatores presentes neste relacionamento me-filho, 
que determinam o subseqente desenvolvimento de caractersticas de personalidade, ou, mais 
especificamente, do repertrio de comportamento da criana. 
Deu-se uma grande nfase  influncia que a personalidade da me exerce na da criana, uma vez que esta  
ainda pouco estruturada. 
44 
45 
Podemos citar nesta linha, que Caldwell e Hersher (1964) chamam de modelo terico mondico (isto , 
unidirecional) de I-M-F, o estudo longitudinal conduzido no Felis Institute (Badwin, Kalhorn e Breeze, 1945), 
que enfatiza a influncia dos pais, seu nvel scio- cultural, local de residncia (cidade, campo), idade, prticas 
de criao adotadas, como determinantes de algumas caractersticas de personalidade da criana. 
Na literatura especializada, Freud (1962)  considerado o introdutor do tema na Psicologia, pois teria mostrado 
como os padres de conduta dos pais concorrem para a formao de ansiedades e neuroses. Mais 
recentemente, outros representantes da linha psicanaltica podem ser citados. De um lado, Erikson (1972) 
ressaltou a importncia do tipo de atmosfera emocional criada pelos pais, no lar, desde a mais tenra idade, 
como fundamental para o desenvolvimento de uma personalidade saudvel, bem estruturada. De outro, 
Melanie Klein (1973) salientou o tipo de relacionamento criana- seio que, no decorrer do primeiro ano de vida, 
lentamente se transforma na relao mais complexa, criana-me, como a base para um desenvolvimento 
saudvel ou patolgico da personalidade. 
Psiclogos da linha da aprendizagem social, por exemplo, Mussen, Conger e Kagan (1974), tambm atribuem 
importncia ao tipo de atmosfera oferecida pelos pais como determinante, nos filhos, de uma personalidade 
adaptada  sociedade, ou, por outro lado, no adaptada, com a presena de ansiedades, dificuldades de 
relacionamento, etc. 
As afirmaes de Mussen, Conger e Kagan baseiam-se em trabalhos anteriores, principalmente no modelo 
circumplexo de comportamento materno proposto por Schaefer em 1959. Este autor, considerando que a 
experincia global da criana  o fator realmente importante no desenvolvimento da personalidade, realizou 
duas pesquisas no sentido de classificar o comportamento das mes em relao a seus filhos do ponto de vista 
emocional e social. 
Na primeira pesquisa registrou, atravs do mtodo de observao direta, o comportamento de 56 mes em 
interao com seus filhos de 1 ms a 3 anos de idade e, na segunda, realizou entrevistas domiciliares com 34 
mes de crianas cujas idades variavam de 9 a 14 anos. 
Os resultados da primeira pesquisa, que foram confirmados pela segunda, levaram Schaefer a propor duas 
dimenses bipolares de comportamento materno, quais sejam: autonomia x controle e amor x hostilidade. 
A primeira dimenso seria representada por autonomia num dos extremos e ansiedade materna, intromisso, 
preocupao com a sade, exigncia para realizao, excessivo contato, promoo de de- 
pendncia e envolvimento emocional, no outro. O extremo positivo da segunda dimenso seria avaliao 
positiva da criana, igualitarismo e expresso de afeto; e o negativo seria ignorar, punir, usar de rigidez e do 
medo para controlar a irritabilidade. 
Mussen, Conger e Kagan mantm a designao de autonomia x controle para primeira dimenso, mas preferem 
usar aceitao x rejeio para a segunda, caracterizando os pais que aceitam a criana como aqueles que, 
criando uma atmosfera democrtica, de respeito  personalidade da criana, e em que predominam prticas 
disciplinares de explicao e reforo, tendem a promover o desenvolvimento de uma criana segura, com bom 
ajustamento, etc. J os pais situados no outro extremo da escala, os rejeitadores, ou seja, hostis em relao  
criana, que fazem grande uso de punio fsica, tendem a promover o desenvolvimelto de uma criana 
ansiosa, insegura e com dificuldade de adaptao social. 
Nesta mesma linha de investigao de comportamentos molares, embora reconhecendo que as crianas vm 
ao mundo com fortes predisposies genticas e que as crianas interagem com seus pais e no so 
simplesmente as vtimas inocentes dos adultos, Munsinger. j em 1 971, mostrou como diferentes prticas 
disciplinares adotadas pelos pais levam a diferentes tipos de personalidade emergente nas crianas. 
Baseado tambm no trabalho de Schaefer, considera como dimenses fundamentais destas prticas as 
dicotomias: 
Amor (me afetiva, aprovadora, compreensiva, que aceita a criana, usa exemplos e explicaes na disciplina, 
d respostas positivas aos comportamentos de dependncia) x hostilidade (me rejeitadora, fria, 
desaprovadora, autocentralizada, usa punio fsica e reforo negativo) e controle (muitas restries, rigidez) x 
autonomia (promoo de independncia). 
Segundo esse autor, vrias combinaes dessas categorias resultam em traos especficos de personalidade 
na criana. Assim, quando os pais usam .mor e controle produzem uma criana submissa, dependente, 
polida, obediente, que  vista e no ouvida e que tem pouca criatividade. Quando usam hostilidade e controle 
levam ao desenvolvimento de um comportamento neurtico, dificuldade de adaptao social, auto-agresso, 
baixo nvel de heteroagressividade, pobre autoconceito e sentimentos de culpa. Os do grupo autonomia- amor 
tendem a produzir a criana ideal: boa adaptao social, criativa, agressividade adequada, independente, 
simptica. 
J uma atitude de hostilidade-autonomia desenvolve comportamento delinqente: alta agressividade, pouco 
respeito pela autoridade, ausncia de controles internos, ausncia de culpa. 
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47 
Na rea do desenvolvimento cognitivo, Tulkin e Kagan (1972) consideram que, embora os psiclogos estejam levando a 
srio a idia de que as experincias da infncia podem influenciar o desenvolvimento, as relaes funcionais especficas 
entre as experincias iniciais e os estilos cognitivos permanecem desconhecidas. 
Examinando as experincias especficas de crianas pertencentes a diferentes classes sociais, verificaram que mes de classe 
mdia se envolvem mais sem interaes verbais com seus filhos e provm maior variedade de estimulao. Verificaram 
ainda que as diferenas c1e comportamento materno encontradas situam-se mais na rea de i:teraes verbais e estimulao 
cognitiva, havendo diferenas mmas nos aspectos afetivos da interao. 
Tambm Campbell (1973) refere-se a vrios estudos recentes que focalizaram as relaes entre tipos de interao pais-
crianas e caractersticas cognitivas particulares da criana. De forma geral, os resultados indicam que intromisso dos pais 
impede o desenvolvimento da habilidade espacial (Bing, 1963), do controle da ateno (Bee, 1967) e de um estilo cognitivo 
independente do campo (Dyk e Witkin, 1965). 
Quando estudou I-M-F numa situao de resoluo de problema, Bing descobriu que mes de crianas com alto nvel de 
capacidade verbal eram mais diretivas do que mes de crianas cujo nvel de habilidade espacial era mais elevado. 
Usando procedimento similar, Bee verificou que pais de crianas dispersivas ofereciam mais direo e estruturao do que 
pais de crianas no dispersivas. 
Dik e Witkin verificaram que crianas menos diferenciadas em vrios aspectos do funcionamento cognitivo, quais sejam 
controle de impulso e capacidade para experincias articuladas, so filhos de mes menos diferenciadas nestes mesmos 
aspectos. 
Em suma, esse modelo mondico, que Bel! (1964) chama de unidirecional, d nfase  maneira como os adultos agem sobre 
a criana, no considerando a possibilidade de que a influncia seja recproca. Nesse trabalho, Bel! critica as teorias que 
enfatizam apenas 
o papel dos pais no processo de socializao da criana, pois este tipo de abordagem unidirecionai de efeitos corre o risco 
de no reconhecer diferenas no comportamento dos pais devidas a cractersticas congnitas da criana (diferenas de 
comportamento ntre grupos de pais foram atribudas aos efeitos exercidos sobre eles por uma limitao na habilidade de 
lidar com o ambiente associada com desordens congnitas da criana afetada). 
2 Traduo do termo intrsiveness, que significa intromisso, no sentido de interferncias inoportunas e excessivas. 
Essas idias do incio a uma srie de pesquisas que levam Bel!. em 1968, j com base em investigao experimental, a 
propor um novo tipo de modelo na rea de I-M-F: o modelo bidirecional ou didico (como chama A!ves, 1973), mostrando 
a necessidade de se considerar tanto o efeito dos pais sobre os filhos como a influncia do comportamento dos filhos sobre 
os pais. 
So exemplos de estudos desta natureza que a seguir sero revistos. 
A partir da observao de um grupo de pares mes-criana, N4oss (1967) faz uma discusso terica a respeito de quais os 
fatores determinantes da I-M-F. 
Do ponto de vista materno, o estado psicolgico existente antes do nascimento poderia determinar, em parte, a forma como 
a me ir responder  estimulao vinda da criana, como tambm os padres de estimulao e resposta que ela ir oferecer 
 criana. Por outro lado, a criana tenderia a agir, atuar, de forma a aumentar ou diminuir o grau de estimulao que lhe est 
sendo oferecido pelo ambiente, especialmente pela me, que, para ela,  geralmente o elemento mais importante desse 
ambiente. Assim, a criana seria uma fonte de estmulos para a me, ao mesmo tempo que esta  uma fonte de estmulos 
para a criana. 
Foram identificados vrios estados da criana (sono, irritabilidade, susceptibilidade a emitir respostas) como importantes 
determinantes do comportamento materno no incio da vida do beb. Da sua concluso de que, inicialmente, o 
comportamento materno tende a estar sob o controle dos estmulos e condies reforadoras que partem do beb (p. 29). 
Para fundamentar sua argumentao Moss cita os trabalhos de Levy (1958), que demonstrou que o comportamento 
materno varia em funo do estado ou do nvel de atividade do beb, de Wolf (1959), de Brown (1964) e de Escalona 
(1962), que descreveram variaes qualitativas no estado do beb ou em seu nvel de atividade, enquanto Bridger (1965) 
mostrou que os padres de resposta do beb so almente influenciados pelo seu estado. 
A importncia desses estados (choro, choramingo, acordado ativo, acordado passivo e sono) na determinao do 
comportamento materno foi tambm reconhecida por Moss (1967). Segundo esse autor, esses comportamentos atuam na 
modelagem da prpria experincia do beb, uma vez que se estabelece um sistema de interao de estmulos entre a me e a 
criana que determina o tipo de experincia a que a me ir mais tarde submeter a criana. 
:i O estudo de Bel! ( l96) ser apresentado mais adiante neste trabalho. 
48 
49 
O fato de os bebs serem capazes, atravs de seus comportamentos, de modelar o tratamento materno,  um 
ponto que cada vez mais vem ganhando reconhecimento, O choro  um sinal para a me responder, e a 
variao deste comportamento entre as crianas pode levar a diferentes experincias com a me (p. 23). 
A maturao da criana, tornando-a, j aos trs meses, um indivduo mais interessante e propenso a 
responder,  tambm determinante do comportamento materno, pois este variou em funo da idade da criana, 
isto , as mes se comportavam de formas diferentes quando seus bebs tinham trs semanas ou trs meses de 
idade. Foram em geral baixas as correlaes entre o comportamento materno nesses dois momentos evolutivos, 
exceto aquelas referentes s respostas do tipo afetivo e social que se mostraram consistentes. 
O sexo da criana pode levar tambm a comportamentos diferenciais da me. Verificou-se, por exemplo (Moss, 
1967, pp. 22-23), que os bebs masculinos dormem menos e choram mais do que os do sexo feminino e que h 
grande variao individual quanto s horas de sono. Isto tem implicaes para a quantidade de experincia e 
contato que mantm com a me. 
Alm disso, as mes responderam menos aos bebs mais irritveis, o que levou Moss a especular que as mes 
foram negativameiite reforadas ao se relacionarem com eles. As correlaes obtidas mostraram que as mes se 
relacionaram cada vez menos com os bebs masculinos  medida que cresciam. As mes destes meninos 
podem ter aprendido que no estavam sendo bem-sucedidas ao aquiet-los e acalm-los, passando ento a 
ignorar seus comportamentos de choro e choramingo. 
Outros comportamentos, como o de imitar vocalizaes, foram mais freqentes com as meninas, sendo, 
portanto, possvel tambm um reforamento diferencial neste sentido. 
Dessas observaes, Moss (1967) conclui que  medida que a criana se torna mais velha, a me que se 
comportava contingente- mente em direo aos seus sinais, gradualmente adquire valor de reforo e aumenta 
sua eficcia corno reguladora do comportamento da criana. O ponto em que o controle da criana sobre o 
comportamento materno diminui e o valor de reforo da me emerge podem representar a primeira manifestao 
da socializao. Assim. inicialmente a me  modelada pela criana, e isso, mais tarde, facilita a modelagem da 
criana pela me (p. 30). 
Portanto, por suas caractersticas particulares, a criana contribui n,a determinao do padro de interao que 
ir se estabelecer. 
Posio semelhante  de Moss encontramos em artigo mais recente de BeIl (1974), que considera suas idias 
especuativas e 
50 
como um convite  comprovao experimental. Assim, diz ele: Parece uma proposio razovel que a gravidez, a 
aparncia do beb e o seu comportamento interajam com o papel da me de criar o subsistema M-C da famlia. Pode-se 
acrescentar que essas caractersticas da criana, s vezes, apenas interagem com a existncia da me como um adulto. Ela 
pode estar simplesmente tentando manter sua vida, sem nenhuma inteno de socializar ningum (p. 4). 
Beli reconhece a importncia de alguns estmulos fornecidos pelo beb como pistas para atuao da me, embora afirme que 
os seus efeitos no devem ser superestimados. Por exemplo, quando responde ao choro do beb, a me no atua apenas em 
funo deste estmulo, mas leva em considerao as condies da ltima amamentao (horrio, quantidade ingerida, etc.) 
Os pais atuam, ento, em funo de caractersticas situacionais e dos estmulos fornecidos pelo beb, porm, em alguns 
casos, os estmulos so to excessivos, que os limites dos pais so ultrapassados, modificando o sistema de cuidados 
dispensados ao beb, o que pode ser verificado em relao ao choro. 
Robson e Moss (1970), citados por BelI, relatam mudanas nos sentimentos subjetivos das mes para com seus bebs nos 
primeiros trs meses aps o nascimento, em funo do excesso de choro, manha e outras exigncias de cuidados 
fisiolgicos. 
Durante o primeiro ms de vida, diz BelI, a me est em essncia  merc do choro de seu filho e, em alguns casos, no 
terceiro ms, o choro est no que parece ser o limite de tolerncia de muitos pais. . Algumas crianas excedem estes limites, 
os esforos da me so inadequados, a criana continua a responder com choro (p. 5). 
Este tipo de comportamento da criana poderia, em alguns casos extremos, levar a punies excessivas, gerando um tipo de 
comportamento agressivo dos pais. Esta concluso de Beil baseia-se nos estudos de Gil (1970), sobre crianas maltratadas 
pelos pais, pois algumas crianas colocadas em lares adotivos eram maltratadas por diferentes mes adotivas, enquanto 
outras nunca haviam sido maltratadas nestes mesmos lares. Os maus tratos, segundo Gil, seriam efeito tanto de 
caractersticas dos pais como das crianas, e das situaes de srress emocional sob as quais viviam. 
Estes fatos colocam questes sobre as qualidades de estmulo da criana e levaram Beil a pensar como os diferentes tipos 
de comportamento emergente na criana eliciam diferentes tipos de reao dos pais (por exemplo, a clica maximiza as 
interaes de cuidados e minimiza as interaes sociais) e a concluir que o sistema pais- criana  uma relao recproca 
que envolve dois OU mais indivduos 
o 
que diferem amplamente em maturidade, porm no em competncia, no que diz respeito a afetar um ao outro (p. 15). 
J Sander (1965), atravs de um estudo longitudinal de 30 pares M-F, cujo objetivo era descrever e analisar os padres de 
interao que se estabelecem entre esses pares no incio da vida da criana  portanto descrever, sistematicamente, a 
ontognese das relaes interpessoais da criana  constatou que, aps um certo tempo de observao, o experimentador 
podia prever o que aconteceria em seguida, em termos de interao dos pares, supondo, pois, uma regularidade, uma srie 
de comportamentos comuns aos vrios pares, apesar das diferenas individuais, tambm existentes. Cada nvel mais 
avanado de atividade da criana demandava um novo ajustamento da I-M-F, um novo equilbrio precisava ser alcanado. 
Se um estado no alcanava um equilbrio satisfatrio, havia maiores dificuldades em alcanar o seguinte, o que mostra a 
importncia da sincronia ou assincronia no desenvolvimento de padres cada vez mais complexos de interao. 
Outros autores preocuparam-se com o mesmo problema, embora o tivessem pesquisado apenas em relao a um ou alguns 
comportamentos especficos, principalmente o choro e o sorriso. 
 o caso de Rheingold (1969), Moss (1967), Laufer e Denhoff (1957), que verificaram ser o choro do nen um estmulo 
bastante importante na determinao do comportamento materno, instruindo a me, de certa forma, sobre como deve agir 
para fazer cessar aquele comportamento. Da mesma forma que o choro, o sorriso  considerado como estmulo para a me, 
com a diferena de que o primeiro seria um estmulo aversivo e o segundo, reforador. 
Para Rheingold (1969), a criana, por um lado, recebe dos pais todo o cuidado mas, por outro, ela ensina aos pais como 
dispensar esse cuidado atravs dos sinais que emite, como choro e sorriso (p. 785). 
Etzel e Gewirtz (1967) e Gewirtz e Gewirtz (1965) citam 
estudos nos quais a emisso do sorriso, pela criana, aumentou a 
probabilidade de permanncia da me ou da substituta junto  
criana. 
Brown e colaboradores (1975) partem do fato de que os primeiros encontros entre a me e o recm-nascido freqentemente 
determinam a natureza de suas relaes subseqentes, porque as mes parecem particularmente sensveis a seus bebs nos 
dias seguintes ao parto e seria nessa poca que os padres individuais de interao se estabeleceriam e passariam a ser 
relativamente duradouros. 
A partir de observaes de interaes de um grupo de mes negras com seus respectivos bebs recm-nascidos, durante a 
ama 
mentao, Brown (1975) concluiu que as mes agiam em funo do sexo da criana (meninos eram mais beijados e 
acariciados), da posio ordinal (gastavam mais tempo na alimentao do primeiro filho), do estado de maior ou menor 
atividade (crianas cujas mes ingeriram mais drogas por ocasio do parto eram mais passivas, geralmente, e as mes 
gastavam mais tempo segurando-as, amamentando-as e estimulando-as) e do peso da criana (vocalizavam mais para as 
crianas mais pesadas). 
Pesquisando o choro do beb como uma forma de provocar aproximao materna, Ainsworth e Beli (1972) consideram que 
o choro aversivo para o adulto, causa desprazer ou alarme e elicia interveno no sentido de interromp-lo e de desencoraj-
lo. 
Estudando 26 pares M-C, em visitas domiciliares, verificaram que, no primeiro trimestre de vida, o choro  um sinal para 
promover aproximao e contato com a me, ativando seu comportamento.. Responder ao choro do beb poderia reforar 
este comportamento e fazer com que se transforme de respondente (no incio) em operante. Bebs pequenos tendem a 
chorar mais freqentemente quando longe do contato fsico, visual ou auditivo da me, e tendem a se acalmar mais 
efetivamente por contato fsico prximo. As mes tendem a usar mais o pegar no colo do que qualquer outra coisa, e por 
isso me e filho esto adaptados. 
No quarto trimestre, o choro ocorreu com maior freqncia na presena da me, portanto, era dirigido para um objetivo. 
Assim, o choro  o primeiro sinal de um repertrio de promover proximidade. O comportamento do beb seria 
geneticamente programado para o prottipo de uma me propensa a responder. A resposta materna tende a fazer cessar o 
choro. 
M-F formam uma dade de interao  quanto mais a me responde, menos o beb chora e mais facilmente eles desenvolvem 
modos variados de comunicao. Mas, nem todas as mes, atualmente, respondem com muita freqncia s solicitaes de 
seus bebs, e muitas fazem isso deliberadamente, pela crena de que faro um beb exigente e dependente. Os dados desse 
estudo de Ainsworth e Beil (1972) provam o contrrio, ou seja, que permanecem mais chores os bebs que so de mes 
que tendem a responder menos, que ignoram mais o choro ou demoram mais para responder. Os bebs que receberam maior 
afeto nos primeiros meses, tornaram-se mais independentes e os que nesse mesmo perodo tiveram menor contato 
tornaram-se ambivalentes, isto , no responderam positivamente quando levados ao colo e protestaram quando colocados 
no cho. As crianas que no choravam quando a me saa de casa, tenderam a ter mes mais dispostas a responder aos 
estmulos da criana do que as crianas mais choronas e manhosas; a)  re 52 
53 
jeitada a crena de que responder ao beb refora o comportamento de choro; b) o tipo de relacionamento M-F 
nos primeiros meses pode determinar o tipo de interao subseqente; c) mes que respondem ao choro 
podem dar segurana ao beb para procurar utilizar outros modos de comunicao e assim ocorrer uma 
relao inversa entre choro e competncia. 
Atravs de uma reviso da literatura comparativa, Harper (1971) mostra como filhotes de mamferos fornecem 
estmulos que afetam o comportamento de seus pais e aponta evidncias que sugerem a utilidade de adotar um 
ponto de vista semelhante na anlise comportamental das relaes pais-prole no homem, O autor considera 
que os estmulos provenientes dos filhotes funcionam tanto para aumentar (facilitar) como para diminuir (inibir) 
a probabilidade de qualquer comportamento dos pais, desde respostas especficas at padres altamente 
complexos de ao. Assim, o choro interrompe uma refeio, e a rapidez e a eficincia do sugar determinam a 
durao da refeio; o autor cita exemplos semelhantes com bebs humanos. 
Por outro lado, o desenvolvmento de um tipo de relacionamento pais-prole pode ser considerado um tipo de 
sensibilizao. Wasz-Hockert (1964) verificou que as mes podem distinguir o choro indicativo de desconforto 
daquele indicativo de fome do beb, e assim orientar-se com respeito s necessidades fisiolgicas da criana. 
Por sua vez, Formby (1967) mostrou que a maioria das mes  capaz de distinguir o choro de seu prprio filho 
do de outras crianas poucos dias aps o nascimento, o que leva  adoo de atitudes especficas. 
Alguns outros fenmenos comprovados em animais ainda no o foram em seres humanos. Existe apenas urna 
literatura inicial, da qual se pode esperar que, num estgio mais avanado, venha a comprovar certos tipos de 
comportamentos emitidos por bebs humanos como responsveis pela eliciao de comportamento dos pais. 
Blurton Jones (1972) chama a ateno para a dificuldade de transpor diretamente para a Psicologia do 
Desenvolvimento os mtodos tradicionais de estudo da etologia, visto derivarem estes mais das cincias 
biolgicas e fsicas. Enquanto que um estudo, uma observao relatada por um etologista pode ser repetida 
por outros para efeito de comprovao, o mesmo nem sempre ocorre no caso de crianas. Neste, segundo ele, 
at recentemente os comportamentos no eram descritos em termos do observado, mas de significados, ou 
ainda em termos que tinham um status tambm vago. Nos primeiros estudos sobre freqncia de agresso, 
por exemplo, os termos no eram bem definidos, podendo um mesmo comportamento ser classificado ora de 
agresso, ora de briga. 
Esse autor sugere que os aspectos do mtodo da etologia mais teis aos pesqusadores da Psicologia do 
Desenvolvimento so aqueles referentes ao estudo do comportamento e das interaes entre os indivduos. 
Pesquisando interaes entre animais, os etologistas fazem distino entre causa e efeitos do comportamento, 
isto , procuram tornar claro atravs da histria do desenvolvimento o que leva o animal a apresentar um certo 
comportamento e qual o efeito que este comportamento exerce sobre outro animal. 
Assim, na linha de desenvolvimento humano, Blurton Jones relata alguns estudos que procuram mostrar os 
efeitos da criana sobre a me e da me sobre a criana. Dada a complexidade do processo, admite ele que no 
se pode atribuir a responsabilidade da ocorrncia de um comportamento a um s ou a poucos fatores, mas sim 
a uma multiplicidade destes, do que decorre a necessidade de um esforo conjunto, de vrias cincias, desde a 
farmacologia at a sociologia. S assim ser possvel melhor entender todos os fatores que agem e interagem 
no processo, ou pelo menos boa parte deles, evitando o perigo de explicaes simplistas para um fenmeno 
complexo. 
No mesmo sentido, prope a utilizao de categorias que definam comportamentos moleculares de forma 
suficientemente precisa e clara, para evitar o perigo de diferentes interpretaes por diferentes 
experimentadores. Termos amplos como agresso, ou ligao afetiva, ou ansiedade ou ainda socializao, por 
inclurem diferentes formas de manifestao de comportamento, pouco esclarecem sobre suas relaes com 
outros fatores ambientais. Para que se possa chegar a uma definio operacional destes conceitos, torna-se 
necessrio utilizar todos os mtodos e tcnicas disponveis, experimentais (controle de situao) ou no 
experimentais (estatsticos ou correlacionais). 
Richards e Bernal (1972), num estudo de crianas durante o primeiro ano de vida, se propuseram, entre outros, 
o objetivo de verificar a influncia recproca de me e filho e oferecer medidas relativamente independentes dos 
elementos que cada participante traz para a situao. 
Trabalharam com um grupo de mes de primeiro e segundo filho, da rea urbana de Cambridge, de classe 
mdia, utilizando tcnica de observao em alguns dias fixos para todos: o segundo, terceiro, oitavo e dcimo 
dias de vida, que foram considerados como uma amostra adequada do perodo ps-parto, capaz de permitir 
uma avaliao das mudanas de comportamento que poderiam ocorrer durante este perodo. 
Embora o objetivo principal tenha sido o de avaliar o desenvolvimento nas primeiras 60 semanas, de um tipo 
particular de beb em interao com um tipo tambm particular de me, a obteno 
54 
55 
dessas medidas foi considerada uma tarefa difcil. De um lado, porque em torno do oitavo dia de vida o comportamento da 
criana j foi moldado por suas interaes prvias com a me, de outro lado, a me, mesmo ausente,  influenciada pelo 
beb. Por isso, esses autores entendem que o nico comportamento materno que nos permite avaliar sua disposio para 
responder e seu papel na interao  seu comportamento durante a prpria interao. 
Cada observao abrangia o tempo desde quando o beb era carregado para ser amamentado at seu retorno ao bero, 
incluindo portanto a amamentao e a troca de fraldas do beb. Em cada visita, o observador deveria responder algumas 
questes que descrevessem suas impresses a respeito do beb e das atitudes da me em relao a ele. As categorias de 
comportamento emergiram aps uma fase preliminar, que consistiu na investigao de 60 pares M-C durante 200 horas. 
Os resultados indicaram que bebs alimentados ao seio ou  mamadeira podem diferir desde o nascimento (assim como suas 
mes) e ter com elas uma interao diferente nos primeiros dez dias de vida. Um outro fator em relao ao qual ocorreram 
diferenas no comportamento dos bebs foi a administrao ou no de uma droga (Pethilorfan) s mes durante o parto. A 
importncia desta constatao  que, se os efeitos diretos da droga continuarem, podero advir conseqncias evolutivas 
para o beb, pois admitem os autores que o estilo da interao  determinado nesta fase inicial. 
Blurton Jones e Leach (1972) estudaram o efeito da separao 
e do reencontro nas mes e nas crianas, quando estas eram deixadas 
por algumas horas no play-ground. Outro objetivo era verificar 
por que algumas crianas choravam e outras no, e o efeito do 
comportamento da criana na me, em um grupo de 35 sujeitos de 
21 a 60 meses. 
Verificaram que as crianas que choravam enquanto suas mes iam se separando delas eram filhas de mes que: 
aproximavam-se mais freqentemente da criana durante a separao; saam mais freqentemente sem que a criana 
percebesse; sorriam menos freqentemente durante a separao, e no reencontro essas mes tocavam nas crianas com mais 
freqncia. O comportamento materno durante o reencontro parece ser altamente dependente do comportamento da 
criana, tanto no caso das que choravam na separao, como no das que no choravam; como exemplo, o levantar os braos 
pela 
4 O trabalho publicado refere-se aos resultados preliminares de um grupo de 
38 mes em interao com seus filhos recm-nascidos nos primeiros dez dias 
de vida. Alm disso, restringe-se  anlise do comportamento das mes e de 
seus bebs durante a amamentao natural ou artificial, bem como da influncia 
da medicao obsttrica. 
criana esteve altamente associado com o comportamento da me em tocar a criana. 
J em relao  idade, verificaram que, no caso das que no choravam, a disposio da me para responder no 
variava com a idade da criana; e, no caso das que choravam aps os dois anos e meio, obtinham menos 
respostas de suas mes e sorriam menos para elas. 
Utilizando observao da interao social de crianas pr-escolares entre si e com as mes (10 crianas 
normais e 3 com problemas), Leach (1972) verificou que crianas com problemas (dificuldade em separar-se da 
me) mostravam interaes reduzidas e insatisfatrias, tanto com os companheiros como com as mes. Alm 
disso, iniciavam menos comportamentos e respondiam menos a outras crianas do que as normais, obtinham 
menos sucesso para eliciar respostas em outras crianas e tambm respondiam menos s suas mes do que as 
normais. Por sua vez, as mes dessas crianas pareciam evitar interaes com seus filhos. 
Desta forma, pode-se concluir, como o fez Harper (1971), que, dado o fato de a criana afetar o comportamento 
de seus pais de modos identificveis e de que o estmulo vindo da criana pode ser analisado em termos 
mensurveis, a relao pais-filhos, em seres humanos, pode ser vista e estudada como um processo de 
interao de estmulos. 
A partir destas colocaes da etologia, poder-se-ia pensar que as crianas so geneticamente programadas 
para eliciar estimulao em seus pais, da mesma forma que os pais, e principalmente a me, seriam 
geneticamente programados para oferecer proteo, que garante a sobrevivncia da criana. A par desta 
influncia, a nvel mais biolgico, ter-se-ia influncia psicolgica, responsvel pelas diferenas individuais de 
reaes e de seqncias de interao, bem como a influncia cultural, responsvel por uma certa uniformizao 
de comportamento num determinado grupo de indivduos. 
Nessa mesma linha de consideraes, Stayton, Hogan e Ainsworth (1971), ao discutirem o antagonismo 
criana x sociedade, argumentam que ele no deveria existir, porque as crianas teriam uma predisposio 
inata, natural, para adquirir certos tipos de comportamentos sociais, isto , seriam geneticamente viesadas em 
direo a certos comportamentos sociais, ou ainda, seriam pr-adaptadas a um ambiente social semelhante, nos 
aspectos essenciais, ao ambiente no qual a prpria espcie se desenvolveu. 
Esses autores levantam a hiptese seguinte: se uma me aceita, Coopera e  sensvel aos sinais da criana, 
esta tende a obedecer seus comandos e proibies verbais, mais consistentemente do que uma criana cuja 
me  rejeitadora e insensvel. Alm disso, a 
56 
57 
tendncia da criana a aquiescer seria independente das tticas especficas de socializao ou dos procedimentos 
disciplinares. Em outras palavras, seria uma disposio geneticamente programada, que no requer treino. 
Testaram a hiptese atravs da observao de 25 pares M-C, de cor branca e de classe mdia, durante o primeiro ano de 
vida. Chegaram  concluso de que uma disposio para obedincia emerge num ambiente social que responde aos 
comportamentos da prpria criana, sem treino ou disciplina extensa ou outras tentativas de modelar o curso de 
desenvolvimento da criana. Isso confirmaria a hiptese de uma predisposio da criana para ser social e estar pronta para 
obedecer s pessoas que so mais significativas em seu ambiente social, como prope o modelo etolgico-evolutivo de 
desenvolvimento social inicial, sugerido por Bowlby (1958, 1969) e Ainsworth (1967, 1969). De acordo com esse modelo, 
a criana tem um repertrio de comportamento caracterstico da espcie que  mais prontamente ativado e/ou terminado 
pelas condies de estmulo oferecidas pelos adultos. 
Portanto, a obedincia no seria emergente a partir de reforo 
ou punio, mas sim de uma programao biolgica que levaria  
ligao afetiva: o prprio lao afetivo que se estabelece entre a 
criana e seus pais, particularmente a me, leva  obedincia. 
Assim, a partir da observao de 32 mes que tinham dois filhos, Moss e Jacobs (1976), concluram que: as mes gastam 
menos tempo em atividade social, afetiva e de cuidados com o segundo filho do que com o primeiro (no foram constatadas 
diferenas significantes especificamente para as que se referiam a atividades de alimentao e de comportamentos infantis 
para 21 das 41 variveis consideradas); o decrscimo no tratamento maternal em relao ao segundo filho era maior para 
meninas quando o primeiro filho tambm era menina, e em segundo lugar para menina cujo irmo mais velho era um 
menino; o comportamento materno decrescia menos em relao ao segundo filho, se este fosse do sexo masculino do que se 
fosse do sexo feminino; o segundo filho recebia menos ateno do que o primeiro, se fossem ambos meninos, mas o 
decrscimo era muito menor do que no caso em que ambos os filhos eram meninas; e, finalmente, quase no ocorria 
decrscimo na ateno materna em relao ao menino cujo irmo mais velho era uma menina. O estilo de comportamento 
materno em algumas variveis  atividades de alimentao do beb e comportamentos de criao  foi basicamente 
consistente para o primeiro e o segundo filhos (ex.: imitar vocalizaes, beijar e cuidados). 
Moss e Iacobs oferecem algumas possibilidades de explicao para estas onstataes: a idade da me, mais velha por 
ocasio 
do nascimento do segundo filho; exigncias do primeiro filho quando a me est cuidando do segundo  portanto, o fato de 
ter dois filhos diminui o tempo disponvel da me para cada um; a novidade e a excitao de ter um beb diminuram com o 
nascimento do segundo filho; a experincia com o primeiro filho aumentou a eficincia da me em atender s necessidades 
do beb; o sexo diferente mantm a novidade; lidar com menino pode ter sido uma novidade to grande que mantm o 
comportamento da me em relao ao segundo filho independentemente do sexo do filho mais velho; valorizao cultural do 
sexo masculino; e exigncias maiores por parte dos bebs masculinos. 
Resultados anteriores obtidos por Hilton (1967) e Rothbart (1971) sugerem que a diferena de tratamento do primeiro filho 
em relao aos demais deve-se ao sexo da criana. Assim, Hilton (1967) verificou que os tipos de dependncia dos 
primognitos so diferentes conforme o sexo da criana, ou seja, que os pais podem tolerar esse comportamento em 
diferentes reas conforme o sexo do filho. 
Beckwith (1972) estudou diferenas nos padres de comportamento social estabelecidos entre a me e seu beb, do beb 
em relao a ela e entre o beb e estranhos em 24 pares de mes e seus filhos adotivos, metade dos quais era do sexo 
masculino e a outra metade do sexo feminino. 
Dada a natureza da interao observada, Beckwith considerou difcil atribuir o incio da interao a um dos membros do 
par. No entanto, alguns resultados podem ser destacados: quanto mais a me ignorava os sinais do beb ou censurava seu 
comportamento. menos o beb parecia orientado para ela e menos mantinha contatos com ela; se a me no permitia 
expresso de impulsos do beb e exercia controle maior sobre eles, mais a criana ignorava a me; o choro do beb era 
determinante do comportamento materno no sentido de fazer com que a me respondesse a ele ou o ignorasse; tanto o alto 
grau de choro como a maior freqncia com que a me o ignora esto associados com a diminuio do brinquedo social (com 
a me); o choro, nos primeiros meses, estimula a resposta materna, mas entre os oito e onze meses a me passa a ignor-lo; 
portanto, o comportamento materno varia em funo da idade da criana; a tendncia da me em dizer no a seu beb 
estava associada, por um lado, com a diminuio da tendncia do beb a responder a ela, e, por outro, com maior 
quantidade de choro e maior tendncia a responder a estranhos. 
J Carter e Bow (1976) manipularam a emisso de vocalizaes de desagrado em bebs de ambos os sexos cujas idades 
variavam de nove meses e meio a onze meses. Um grupo foi deixado 
58 
9 
s num quarto com brinquedos, enquanto o outro permanecia tambm s, num quarto sem brinquedos, durante um breve 
perodo de separao (5 minutos). Nos dois grupos as mes permaneciam numa sala contgua provida de um monitor de 
televiso, por onde observavam o comportamento de seus filhos. De acordo com as instrues recebidas, as mes podiam 
interromper a separao a qualquer momento. 
Os autores verificaram que os brinquedos adiavam a emisso de vocalizaes de desagrado, isto , os bebs deixados sem 
brinquedos emitiam estas manifestaes em menor tempo do que os do grupo com brinquedos. Quanto s mes, 
constataram que a vigilncia era funo da presena de um brinquedo e da interao brinquedo-sexo (as mes dos meninos 
observaram-nos um pouco mais do que as mes das meninas, sorriram mais na situao de brinquedo presente) e que a 
ausncia de brinquedo provocou mais rapidamente o trmino da separao, porm a diferena no foi significante. 
Em nosso meio, podemos citar trs autores que trabalharam a partir do modelo de influncia recproca me-criana. 
Alves (1973) estudou, atravs da observao de pares mes- crianas, comportamentos de bebs considerados importantes 
fontes estimuladoras para a me, entre os quais choro, sorriso, verbalizao e olhar mtuo. 
Verificou que cada par me-beb manteve um padro comportamental e de interao constante, concluindo que me e 
criana formam um sistema e que nesse sistema o comportamento de cada elemento  freqentemente estmulo para o 
comportamento do outro. 
Tambm a partir do modelo bidirecional de influncias recprocas, Marturano (1972), focalizou uma dimenso de I-M-F, 
qual seja, as contingnciaS significativas entre comportamentos verbais dos membros da chade no curso da conversao. 
Sollitto (1972) props-se observar e estudar a l-M-F, utilizando o modelo bidirecional de anlise, em uma situao 
especfica  ou seja, a do banho do beb. 
Em resumo, a literatura mostra que o comportamento da criana tambm tende a condicionar o comportamento da me, ou 
seja, que o comportamento do filho tem propriedades de estimular o comportamento materno. Mostra que a interao M-
C  uma via de mo dupla, no sentido de que as influncias dos agentes de interao so recprocas e que esse processo de 
interao no  unilateral. 
A literatura registra tambm alguns trabalhos em que tipos particulares de crianas e a interao com suas mes foram o 
objetivo do estudo. Para exemplificar, pode-se inicialmente apresentar o estudo realizado por Bel! (1968). Segundo este 
autor, existem 
60 
fatores congnitos que contribuem para duas classes de comportamento da criana e que exercem influncias diferentes nos 
pais: 
fraco desenvolvimento sensrio-motor e desordens de comportamento, entre as quais inclui a hiperatividade. 
De acordo com Behl, os pais no tm tcnicas fixas para socializar as crianas, mas sim repertrio de aes que variam 
conforme o objetivo. A presso cultural, de um lado, e a estimulao do objeto de aculturao, de outro, so as condies 
que ativam diferentes componentes desse repertrio. Algumas caractersticas das crianas, como seu estado geral de 
dependncia, servem de estmulos para conduzir a respostas na maioria dos pais. Outro efeito da criana sobre o 
comportamento dos pais revela-se na seleo que estes fazem de elementos do repertrio de prticas para cuidar da criana. 
Na teorizao desse autor existem hierarquias de aes, e crianas diferentes ativam partes diferentes dessas hierarquias. As 
aes dos pais so de tal forma programadas por certas crianas que, num momento ou noutro, ou em seqncia, pode ser 
eliciada toda a hierarquia que  importante para uma certa classe de comportamento da criana. O comportamento dos pais, 
assim eliciado, pode ser reforado ou no pela criana. 
Segundo esse autor, ainda, h nos pais dois tipos de repertrios de comportamento que se prestam ao controle. Um deles, 
que Beil chama de comportamento para controlar limite alto ,  aquele ao qual os pais recorrem para reduzir e redirigir 
comportamentos da criana que, segundo eles, ultrapassam os padres de intensidade, freqncia e adequao para a idade 
da criana. Este tipo de atitude ds pas ocorre em resposta a choro excessivo do beb, ou comportamentos impulsivos, 
hiperativos ou assertivos da criana pequena. 
O outro tipo de repertrio  o que Bel! designou de comportamento para controlar limite baixo , atravs do qual os pais 
estimulariam comportamentos que considerassem estar abaixo dos padres, e que seria estimulado pela letargia do beb, 
hipoatividade, inibio excessiva, ou ausncia de aptides da criana pequena. 
Quando os comportamentos dos pais so classificados sem que se tenha em conta a estimulao proveniente da criana, os 
do primeiro tipo podem ser erroneamente descritos como punitivos ou restritivos e os do segundo tipo como 
exigentes ou como pais que interferem em excesso. 
Preocupada em verificar se o nvel de atividade da criana poderia influir no tipo de prtica de educao adotada pelos 
adultos, 
Traduo proposta para a expresso upper limit control behavior. 
Traduo proposta para a expresso lower limt control behavior. 
61 
Stevens-Long (1973) verificou que as crianas hiperativas recebiam disciplina mais severa, especialmente quando eram 
rotuladas como tal; quando no rotuladas, recebiam tratamento menos severo; as crianas hipoativas recebiam disciplina 
mais severa do que as crianas medianas, quanto ao nvel de atividade; se o rtulo dado no condissesse com o 
comportamento efetivamente emitido pela criana, o efeito sobre a determinao das prticas adotadas era menor. 
Por outro lado, os sentimentos manifestados pelos adultos em relao  criana tambm apresentaram correlao com a 
severidade das prticas. As crianas hiperativas, portanto, as que recebiam tratamento mais severo, tambm despertavam 
sentimentos negativos, eram consideradas ms, agressivas e menos cativantes. 
O estudo realizado por Campbell (1973), j citado anteriormente neste trabalho, representa, de um lado, uma tentativa de 
lidar com a direo dos efeitos da me sobre a criana e desta sobre aquela. Por outro lado, atravs dele, a autora procurou 
obter dados comparativos relativos aos padres de I-M-F em tarefas cognitivas, usando grupos selecionados com base no 
estilo cognitivo da criana e no controle de impulso. 
Para tanto, comparou padres de I-M-F de trs grupos de crianas  reflexivas, impulsivas e hiperativas  e concluiu que o 
grau de envolvimento da me na soluo da tarefa foi determinado, em parte, pela habilidade da criana em completar a 
tarefa. Alm disso, embora o grau de envolvimento materno fosse igual para os trs grupos, o tipo foi diferente. Esse 
resultado corrobora o que foi obtido por Bee (1967), segundo o qual os pais de crianas distradas e no distradas diferem 
entre si mais quanto aos padres de interao do que quanto  quantidade de interaes. 
No caso das crianas hiperativas (do estudo de Campbell), as mes forneciam mais ajuda fsica, mais encorajamento e 
sugestes de controle de impulso durante a tarefa difcil. Segundo a interpretao da autora, essas mes teriam aprendido a 
estruturar as tarefas como uma resposta  inabilidade de seu filho de focalizar a ateno, de controlar a impulsividade e de 
persistir. No entanto, ao contrrio do estudo de Stevens-Long, essas mes no foram mais punitivas ou desaprovadoras na 
situao de interao. As crianas hiperativas interagiam mais e faziam mais comentrios sobre seu prprio desempenho, o 
que sugere que a atividade verbal aumenta com a dificuldade da tarefa e com a dificuldade de ateno e persistncia, que 
podem ser sinais para a me interferir e prover a ajuda necessria. 
Para sua surpresa, a autora verificou que as mes das crianas reflexivas tambm deram mais ajuda fsica direta durante as 
tarefas difceis e mais sugestes especficas durante a tarefa anagrama (considerada tarefa verbal difcil), do que as mes das 
crianas 
impulsivas. Embora contrrio ao que se poderia esperar, isto pode ser explicado em termos das expectativas 
dessas mes. 
As mes das crianas impulsivas poderiam no estruturar as tarefas tanto quanto as mes dos outros dois 
grupos, porque elas poderiam ter expectativas mais baixas de realizao e sentir que seus filhos poderiam 
satisfaz-las. Por outro lado, as mes das crianas reflexivas tendem a intervir quando observam que seus 
filhos precisam de ajuda, porque esto pressionando para um grau mais alto de realizao. 
Essas interpretaes baseiam-se em dados de entrevista, onde as mes das crianas impulsivas referiram 
expectativas mais baixas para realizao futura do que as mes dos dois outros grupos.  possvel tambm que 
as crianas reflexivas tenham aprendido a pensar antes de responder, justamente porque suas mes 
interferiram em momentos cruciais e estruturaram as tarefas apropriadamente, enquanto que as mes das 
crianas impulsivas falharam na interferncia, levando-as a adotar uma abordagem de tentativa-e-erro. Por 
outro lado, diferenas nas expectativas das mes podem refletir estilos cognitivos diferentes. As mes das 
crianas impulsivas podem ter expectativas mais baixas porque seus filhos tendem a uma realizao inferior. 
Nesta questo, conclui Campbell, a direo dos efeitos est longe de ser identificada. 
Ocorreu tambm que as crianas hiperativas geralmente eram de um grupo scio-econmico um pouco mais 
alto, e assim as diferenas de comportamento das mes das crianas hiperativas e impulsivas poderiam refletir 
diferenas devidas  classe social quanto  manipulao do comportamento impulsivo. 
Em trabalho posterior, Campbell (1975) props-se a comparar um grupo de 13 pares M-C (normais) com um 
grupo de 13 pares M-C (crianas hiperativas) e um grupo tambm de 13 pares M-C (crianas com dificuldades 
de aprendizagem). A idade mdia das crianas era de aproximadamente oito anos. 
Em face dos resultados do estudo anterior, esperava-se que as crianas hiperativas eliciassem mais feedback 
e que houvesse mais estruturao da atividade por parte de suas mes do que nos outros dois grupos. De 
fato, as mes das crianas hiperativas deram mais sugestes no especficas, mais encorajamento, mais 
sugestes sobre controle de comportamento e mais desaprovao do que as dos outros grupos. Assim, elas 
estavam ao mesmo tempo respondendo na situao de interao, de forma a estruturar a tarefa e otimizar o 
desempenho, e respondendo ao estilo cognitivo de seus filhos. As crianas hiperativas eliciaram e mantiveram 
um alto grau de interao, por requisitar mais feedback e fazer mais comentrios. 
62 
63 
Patterson, Jones, Whither e Wright (1965) sugerem que, sendo bastante aversivo para o adulto o alto nvel de 
atividade da criana, aquele usar uma srie de procedimentos (especialmente a punio) para moldar o 
comportamento da criana a um nvel mais aceitvel. A criana que opera num alto nvel de atividade pode ser 
punida mesmo quando se comporta de forma socialmente aceitvel, por exemplo, amigavelmente. 
Sugerem ainda esses autores que o grau elevado de punio dado  criana hiperativa torna mais lento o 
processo de desenvolvimento de comportamentos socialmente desejveis. Propem ento que algumas 
respostas especficas da criana sejam condicionadas atravs do uso de reforo e punio oferecidos por pais, 
professores e colegas, de forma a se conseguir um controle do comportamento hiperativo e um aumento do 
comportamento de concentrar a ateno durante as aulas. 
Desta multiplicidade de abordagens e de possibilidades de investigao experimental, ou mesmo de 
interpretao terica, decidiu-se optar pelo modelo bidirecional de influncias recprocas que, embora ainda 
recente como proposta para se entender o completo processo de I-M-C, parece bastante promissor e menos 
simplista do que o modelo mondico de interpretao. 
Esse modelo, chamado bidirecional, parece, sem dvida, representar um progresso em relao  forma anterior 
de se apresentar os dados. Isto , de que a personalidade da me exerce influncia marcante na da criana, sem 
que se considere a hiptese contrria. 
No se pode deixar de pensar, entretanto, que fatores externos  dinmica especfica estabelecida entre os 
membros da dupla M-C possam interferir e mesmo dirigir o tipo de relacionamento. 
Isso porque, conforme sugestes de Blurton Jones (1972),  apenas a partir de uma abordagem mais ampla, que 
leve em considerao outras variveis alm das especificamente psicolgicas, que se poder chegar  
compreenso do processo do desenvolvimento humano. 
Entre estas outras variveis uma delas  o nvel scio-econmico- educacional (NSEE) a que o sujeito 
pertence, que como demonstra a literatura pode determinar as reaes e atitudes no desempenho do papel de 
me. 
Como j foi visto, parte da literatura consultada, toda ela experimental e bem fundamentada, leva a esperar uma 
incisiva influncia da criana na determinao de comportamentos maternos. Ou, melhor dizendo, procura 
explicar o processo de I-M-C em termos dinmicos, de inter-relao de estmulos de interdependncia do 
comportamento de cada um dos participantes do processo. 
E o caso, por exemplo, das investigaes realizadas por: 
Horowitz e Lovel (1960), com mes de sujeitos esquizofrnicos do sexo feminino; Mark (1953), Freeman e Graryson 
(1955), Gerard e Siegel (1950) com mes de esquizofrnicos masculinos; Madoff (1958), com mes de crianas 
esquizofrnicas, rtardadas e portadoras de leso cerebral; Peterson e colaboradores (1959), com pais de crianas com 
problemas de personalidade e conduta. Outros autores, entretanto, atriburam as diferenas de comportamento dos pais, ou 
apenas das mes,  interferncia do nvel scio-econmico/ educacional. Essa possibilidade realmente merece ser examinada, 
porque os estudos (Moss, 1967; Bell, 1968, etc.) que propuseram a I-M-C como processo de interdependncia, de 
regulao recproca de comportamento de cada elemento da dade foram feitos com sujeitos oriundos da classe mdia. 
Sabe-se que, em segmentos mais baixos da populao, a me atua de forma mais autoritria, ignorando os estmulos 
provenientes da criana. E neste sentido,  pertinente relembrar as maiores dificuldades metodolgicas encontradas por 
alguns pesquisadores ao trabalharem com mes de classe baixa. Entre estes, Zunich (1971) mostra a dificuldade em se obter 
um perfil real da I-M-C em uma amostra de sujeitos de classe baixa, vinte mes de meninos e vinte mes de meninas de trs 
a cinco anos de idade. atravs de um procedimento de questionrio e tambm observando diretamente a interao. Embora o 
autor acredite que esta fornea mais subsdios (mesmo que a reticncia ou inibio das mes interfira nos resultados) do que 
aquela onde os julgamentos so feitos por indivduos (os prprios sujeitos) menos qualificados do que os observadores 
treinados e objetivos. 
Especificamente, entre as investigaes que concluram pela alta suscetibilidade das atitudes maternas do NSEE esto as 
realizadas por Garfield e Helper (1962) com mes de crianas de trs nveis econmicos distintos; Zuckerman, Barrett e 
Braginel (1960), tanto com mes de crianas portadoras de vrios tipos de perturbaes de conduta, como com mes de 
crianas normais; Freedheim e Reichemberg-Hacket (1959), com adultos de dois nveis educacionais diferentes  
profissionais especializados em reabilitao e auxiliares de enfermagem. Por sua vez, Zuckerman, Oltean e Monaskin 
(1958b), trabalhando com mes de crianas esquizofrnicas e de crianas normais de um mesmo nvel scio-econmico e 
educacional, no encontraram diferenas de atitudes entre elas. 
Vimos ao longo desta discusso que o processo de Interao- Me-Criana  complexo e depende de inmeras variveis. A 
esse propsito nos parece pertinente lembrar que, j em 1959, Peterson e colaboradores chamaram a ateno para o fato 
de que o compor- 
64 
65 
tamento infantil  condicionado pela interao de mltiplos fatores e para a dificuldade conseqente de defini-los, mensur-los e 
estabelecer o grau de influncia de um ou outro. 
Se, por um lado o comportamento infantil pode ser atribudo a mltiplas causas, o mesmo pode ser dit do comportamento das 
mes. Estas, sujeitas a vivncias e tenses oriundas de vrias fontes, iro atuar sobre seus filhos de acordo com todas estas 
influncias. Inclusive, iro atuar de forma diferente em relao a cada um de seus filhos, em funo das caractersticas 
diferenciais de cada um deles e das circunstncias especiais que estejam vivenciando. 
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